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ELEIÇÕES 2026

Campanha esquenta no Pará: pancadaria, acusações e "puxões" da Justiça Eleitoral

Disputa eleitoral já registra confusão em carreata, ataques políticos e decisões do TRE contra uso eleitoral da máquina pública.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 08/09/26 12:00

Em meio a uma campanha cada vez mais violenta, concessionária continua “fazendo água”, mas prejudica, em vez de ajudar/Fotos: Redes Sociais.


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eleição geral de 2026 será apenas no domingo, 4 de outubro, quando os eleitores irão às urnas no primeiro turno. No Pará, porém, a campanha parece ter resolvido antecipar a temperatura. A disputa já saiu dos palanques, chegou às ruas e começou a bater às portas da Justiça Eleitoral com mais força.

Em Icoaraci, uma carreata política terminou em confusão e pancadaria depois de uma discussão envolvendo o pagamento de uma diária de R$ 50. Na outra ponta, a governadora e candidata à reeleição Hana Ghassan, do MDB, foi obrigada pela Justiça Eleitoral a retirar de suas redes sociais um vídeo em que anunciava medidas do governo contra a concessionária Águas do Pará.

São episódios diferentes, mas reveladores de uma campanha que começa a ganhar contornos mais agressivos: nas ruas, com bate-boca e acusações; nas redes, com a disputa pelo direito de transformar ações de governo em discurso eleitoral.

Uma briga por R$ 50

A confusão em Icoaraci aconteceu durante uma carreata realizada no domingo, 6. O que começou como uma discussão relacionada ao pagamento de uma diária de R$ 50 terminou em confronto entre participantes da mobilização e rapidamente ganhou as redes sociais. Além da pancadaria, o episódio provocou críticas às condições oferecidas a trabalhadores e apoiadores contratados ou mobilizados para participar de atividades políticas. 

A discussão expôs uma realidade conhecida de campanhas eleitorais: a transformação de grandes carreatas em estruturas que dependem de centenas de pessoas para carregar bandeiras, acompanhar veículos e ocupar as ruas. O caso poderia ter terminado apenas como mais uma briga de campanha. Não terminou.

Um candidato a deputado federal pelo Partido Novo que participava de uma das carreatas entrou na confusão e, segundo relatos divulgados nas redes sociais, em vez de contribuir para acalmar os ânimos, teria incentivado o confronto. O candidato atribuiu a responsabilidade pela confusão a um vereador de Belém, com base política em Icoaraci e atualmente no terceiro mandato.

Nas redes sociais, foi além. Chamou o vereador de “bandido” e classificou os participantes ligados ao grupo adversário como “faccionados do crime organizado disfarçados de balançadores de bandeiras”. Também afirmou que seus adversários não suportariam “ver alguém com coragem para apontar o dedo na cara da corrupção que eles tanto defendem”. Acusações graves, portanto, em uma campanha que ainda nem chegou ao primeiro turno.

Na mira da Justiça

Se em Icoaraci a temperatura subiu na rua, no caso da Águas do Pará o embate foi parar diretamente no Tribunal Regional Eleitoral. No sábado, 5, a juíza auxiliar Carina Cátia Bastos de Senna determinou que Hana Ghassan retirasse imediatamente das redes sociais de sua campanha um vídeo no qual anunciava medidas adotadas pelo governo do Pará contra a concessionária.

A decisão atingiu publicações no Instagram, Facebook, TikTok e YouTube e estabeleceu multa pessoal de R$ 5 mil por dia em caso de descumprimento. A Justiça também proibiu novas publicações com conteúdo substancialmente semelhante. Meta, ByteDance e Google foram notificados para retirar os conteúdos e preservar dados das publicações, incluindo visualizações, compartilhamentos e metadados, que poderão ser utilizados no processo.

O ponto central da decisão não foi determinar se as cobranças da concessionária são legais ou ilegais. A questão analisada pela Justiça Eleitoral foi outra: a utilização, pela candidata, de uma medida administrativa do próprio governo como conteúdo de campanha.

Taxas são abusivas

Na sexta-feira, 4, Hana havia anunciado o cancelamento de cobranças feitas pela Águas do Pará, concessionária responsável pelos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário. Segundo a Agência Pará, o governo considerou abusivas e sem respaldo legal três modalidades de cobrança: valores relacionados a poços artesianos, tarifa de disponibilidade de rede e taxas de reativação do serviço.

A orientação do Executivo foi para que consumidores não pagassem boletos que contivessem essas cobranças, enquanto a concessionária seria formalmente notificada para prestar esclarecimentos. A medida ganhou repercussão política porque a tarifa de disponibilidade aparece prevista no contrato de concessão dos serviços. A oposição passou a questionar a base jurídica da decisão e acusou o governo de adotar uma medida de caráter populista e eleitoral. Há, portanto, duas discussões diferentes.

Uma é administrativa e contratual: saber quais cobranças podem ou não ser feitas pela concessionária e qual é o alcance das determinações do governo e da agência reguladora. Outra é eleitoral: saber se a governadora pode usar, em seus canais de campanha, uma ação de sua própria administração como argumento para pedir votos. Foi nessa segunda questão que o TRE entrou.

O “xis” do problema

Segundo a magistrada, embora o vídeo tenha sido publicado nos canais eleitorais de Hana, ela aparece apresentando-se como governadora e atribuindo a si atos praticados pela administração estadual. Para a juíza, houve uma “mescla” entre as figuras da gestora pública e da candidata, com indícios de violação das regras eleitorais que restringem a publicidade institucional nos três meses anteriores à eleição e do princípio constitucional da impessoalidade.

A decisão cita ainda outras três representações nas quais Hana já foi alvo de liminares do TRE - processos nº 0601087-35.2026.6.14.0000, 0601102-04.2026.6.14.0000 e 0601137-61.2026.6.14.0000 - relacionadas justamente à fronteira entre sua atuação como governadora e sua condição de candidata. É um sinal de alerta para a campanha do MDB.

Eleição mal começou

A quase um mês do primeiro turno, o Pará já oferece cenas que normalmente aparecem mais adiante nas campanhas: militantes em confronto, candidatos trocando acusações pesadas, mobilizações de rua transformadas em arena política e candidatos recorrendo à Justiça para impedir que adversários ultrapassem os limites da propaganda. O episódio de Icoaraci mostra a temperatura nas ruas. A decisão contra Hana mostra a temperatura nos tribunais e as duas situações têm algo em comum: a campanha de 2026 começou no Pará muito antes de outubro - e, pelo que se vê, ninguém parece disposto a esperar até o dia 4 para começar a esquentar o jogo. 

Em meio a tudo isso – e talvez por isso –, aparece uma terceira situação verdadeiramente mais dramática nos quatro cantos do Pará: a falta de água que campanha eleitoral nenhuma vai resolver. Veja o vídeo do advogado em Parauapebas, bem distante da confusão de Icoaraci.

 

Papo Reto

Na declaração de bens dos candidatos à Presidência da República, o ranking é liderado por Augusto Cury, do Avante, com mais de R$ 242 milhões declarados. 

•Ele é seguido por Romeu Zema, do Novo, com cerca de R$ 179 milhões, e Ronaldo Caiado, do PSD, com R$ 52,6 milhões. 

Na última colocação está Samara Martins, do UP, com apenas R$ 33 mil declarados. Lula (foto) apresentou R$ 4,8 milhões em bens e Flávio Bolsonaro, R$ 8,2 milhões

•Pouca gente nas arquibancadas, um carro presidencial com pneus carecas e até robô fantasiado de soldado. O 7 de Setembro entregou imagens prontas para a oposição em Brasília. 

Lula vende o Desenrola 2.0 como alívio aos endividados. Os números parecem não ter recebido o release: eram 83,5 milhões de inadimplentes no lançamento; em julho, 83,9 milhões. O programa desenrola. O brasileiro se enrola.

•O mapa da inadimplência no Brasil aponta R$ 586 bilhões em dívidas e quase R$ 7 mil por devedor. Quando Lula assumiu, eram 70,09 milhões de inadimplentes; agora, 83,9 milhões. Se isso é sucesso, melhor nem perguntar como seria o fracasso.

No topo da inadimplência aparece o Amapá: 64,8% da população, terra política de Davi Alcolumbre e Randolfe Rodrigues. Pelo visto, por lá o “Desenrola” ainda não desenrolou nem a própria propaganda.

•A Transparência Internacional Brasil deixou a diplomacia de lado, ao falar em risco de “colapso institucional” na mais alta instância da Justiça, capaz até de contaminar o processo eleitoral.

Quando o alarme chega nesse volume, fingir que é apenas barulho já não parece prudência, parece surdez institucional.





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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.