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AMORES E MOEDAS

Romulo Maiorana sem tapume, entre a fonte, o esgoto e o trânsito que segue caótico

Novo trecho do Parque Linear é entregue com chafariz, lazer e concreto; problemas de drenagem e trânsito, porém, continuam à vista.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 07/09/26 17:00

“Está bonito”, para orgulho da prefeitura, que parece ter criado uma atração à moda da Fontana di Trevi, em Roma – mas os esgotos.../Fotos: Divulgação.


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sábado, 5, foi inteiramente dedicado à inauguração do novo trecho da avenida Romulo Maiorana, entre as travessas Lomas Valentinas e Mauriti, no Marco. A programação começou pela manhã e terminou à noite, justamente na área que virou a “estrela” do novo espaço: o chafariz no cruzamento do chamado Parque Linear 25 com a travessa Barão do Triunfo.

Está bonito, concordam os moradores. E orgulhosa está a Prefeitura de Belém. A nova fonte ganhou até apelido: Fonte do Amor. Os mais empolgados sugerem que, em breve, o local poderá receber lançamento de moedas, à moda da Fontana di Trevi, em Roma. O problema é que se fala de Belém - e por aqui, moedas na fonte provavelmente serão o menor dos problemas.

Muito concreto

Com os tapumes retirados, apareceu o que já era possível imaginar durante a obra: mesmo com algumas árvores preservadas, o novo espaço tem muito concreto. Muito mesmo.

É verdade que há cores, equipamentos, quiosques, quadras e áreas destinadas à convivência. Mas concreto continua sendo concreto: absorve calor e devolve calor. E estamos falando de Belém, uma cidade conhecida pelas temperaturas elevadas e que enfrenta o desafio de conciliar urbanização, lazer e conforto térmico.

Segundo a prefeitura, a intervenção foi executada com ciclovias, calçadas, pavimentação, reestruturação da drenagem e criação de novos espaços de lazer e convivência. A prefeitura também destaca áreas arborizadas - e nessa fronteira começa outra discussão.

Observando o espaço, as chamadas “áreas arborizadas” parecem concentrar-se, em boa parte, em canteiros com plantas ornamentais e flores. Árvores de porte significativo, capazes de produzir sombra e amenizar a temperatura, são outra história. E algumas árvores adultas acabaram cedendo lugar justamente para a implantação de áreas destinadas ao estacionamento de veículos. Plantas ornamentais embelezam; árvores fazem sombra. Em Belém, a diferença não é apenas estética.

E o esgoto?

Há ainda uma questão mais delicada, que merece avaliação técnica. Ao circular pelo novo trecho da Romulo Maiorana, alguns pontos da infraestrutura chamam atenção. Em determinados locais, observa-se o lançamento de águas residuárias nas sarjetas, enquanto a relação entre essa microdrenagem e a rede principal de drenagem, localizada no eixo da avenida, não parece evidente. É preciso esclarecer o que está acontecendo.

Pode ser ausência de rede coletora de esgoto. Pode ser ligação irregular à drenagem pluvial. Pode haver problema de concepção, fiscalização ou integração entre os sistemas de esgotamento sanitário e drenagem urbana. O que não deveria ocorrer é a mistura entre eles.

Sarjetas, bocas de lobo e galerias de águas pluviais são concebidas para conduzir água de chuva. Quando recebem águas residuárias, o problema deixa de ser meramente urbanístico: passa a envolver saúde pública, qualidade ambiental e os corpos hídricos que recebem essa água.

Um vídeo que circula nas redes sociais mostra uma situação que resume a contradição: de um lado, o Parque Linear 25, reformado, colorido e organizado; do outro, praticamente ao lado, junto ao meio-fio, aparecem esgoto, limo e mato. Uma obra nova não deveria esconder um problema antigo.

Exemplo da Duque

E não é preciso andar muito para encontrar situação semelhante. Na avenida Duque de Caxias, também transformada em Parque Linear, nas proximidades da Lomas Valentinas, um problema antigo persiste. Quando chove, o trecho costuma alagar. Nos períodos de sol, a sarjeta se transforma em ponto de acúmulo de águas residuárias, gordura e sujeira, dificultando inclusive a passagem dos pedestres, que acabam obrigados a disputar espaço com os veículos. O problema estaria relacionado, entre outros fatores, ao lançamento de resíduos de estabelecimentos comerciais próximos e se arrasta há anos.

É justamente aí que uma obra urbana precisa ser vista para além do piso novo, da pintura e do paisagismo. Uma cidade não se resolve apenas naquilo que aparece na fotografia da inauguração. E

E o trânsito?

Há ainda o terceiro problema: o trânsito. A antiga avenida 25 de Setembro - hoje Romulo Maiorana - nasceu dentro do processo de expansão de Belém para a Primeira Légua Patrimonial. Seu traçado fazia parte da estrutura urbana que buscava organizar o crescimento da cidade para além do centro histórico.

Com o passar das décadas, Belém cresceu, o número de veículos aumentou e aquela antiga estrutura precisou ser adaptada. Cruzamentos foram abertos, o fluxo passou a ser organizado por semáforos e a avenida ganhou importância como corredor de ligação entre diferentes áreas da cidade.

Agora, com o Parque Linear, parte da estrutura viária dá lugar ao espaço de convivência. A discussão não é se Belém precisa de parques. Precisa - e muito. A questão é onde, como e em que dimensão eles devem ser implantados sem estrangular os corredores de tráfego.

No novo trecho, a maior preocupação está justamente entre as travessas Angustura e Barão do Triunfo, onde ficam dois hospitais e um restaurante de grande movimento. O trecho já enfrenta congestionamentos praticamente em qualquer horário. Com a nova configuração viária e a concentração de pessoas em torno da Fonte do Amor, a tendência é que a pressão sobre o trânsito aumente.

Duas necessidades

É aí que está o dilema. Belém precisa de corredores de tráfego capazes de fazer as pessoas chegarem mais rapidamente aos seus destinos. Mas também precisa desesperadamente de áreas verdes, sombra, lazer e espaços de convivência onde o cidadão possa simplesmente sentar e respirar. Uma cidade não pode ser planejada apenas para os carros, mas também não se pode esquecer que ônibus, ambulâncias, motocicletas, bicicletas e automóveis precisam circular. Da mesma forma, não basta entregar um parque bonito se, ao lado dele, existe esgoto correndo pela sarjeta.

Nem adianta plantar flores e chamar de área arborizada quando o que a população precisa, sobretudo numa cidade quente como Belém, é de sombra. A nova Romulo Maiorana tem uma bela fonte, equipamentos de lazer e uma nova paisagem urbana. Agora começa a segunda etapa da obra - aquela que não tem inauguração, banda ou discurso: fazer a cidade funcionar.

Entre a Fonte do Amor, o esgoto a céu aberto e o trânsito parado, Belém ainda precisa decidir qual cidade quer ser.

Papo Reto

•Um estranho silêncio pesa sobre o atentado sofrido pelo empresário Paulo Lima (foto) sexta-feira à noite, em Santa Bárbara, quando teve seu carro alvejado com vários tiros.

•Paulo Lima é figura conhecida na Ilha do Mosqueiro, onde possui restaurante e o provedor de internet, e mantém vínculos políticos em Santa Bárbara do Pará.

•O Ministério da Saúde anunciou novos critérios para a doação de sangue no País. As mudanças, que entram em vigor em outubro, eliminam o limite de idade para doadores regulares e reduzem prazos de espera.

•A “Folha de S.Paulo” atingiu o nervo: no embate com André Mendonça, Alexandre de Moraes teria trocado a institucionalidade pela “pistolagem” e que, ao vez de esclarecer fatos revelados pela PF sobre sua relação com Vorcaro, partiu para cima de quem os trouxe à luz.

•De fato, atacar o mensageiro não apaga a mensagem. O contrato milionário, as mensagens e as relações reveladas continuam exigindo explicações.

•Quando um ministro precisa usar o poder da toga para se defender de suspeitas que deveriam ser esclarecidas com transparência, quem sai ferido não é apenas o adversário, é o próprio Supremo, opinou o jornalão.

•Flávio Bolsonaro acusou Davi Alcolumbre de blindar Alexandre de Moraes e engavetar pedidos de impeachment. Se há fundamento ou não, cabe ao Senado decidir pelos ritos institucionais. O que não cabe é transformar a gaveta do presidente da Casa em tribunal de última instância.

•Caiado também pediu a saída de Moraes e o fim do sigilo nos casos Master e INSS. Independentemente de quem esteja sob suspeita, há um princípio elementar: quanto mais grave o escândalo e mais poderoso o envolvido, maior deve ser a transparência. Democracia não combina com porões.

•Delegados pedem que o PGR Gonet se declare impedido e reagem à investigação sobre a conduta da PF no caso Vorcaro. 

•A pergunta é inevitável: quando o escândalo chega perto demais do poder, investigam-se os fatos ou os investigadores? Se a resposta for a segunda, temos um problema muito maior que Vorcaro.

Mais matérias OLAVO DUTRA

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.