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Peso da Tradição

Rainha das Rainhas consagra o Marajó e prova que tradição ainda dá espetáculo

Promoção do Grupo Liberal chega aos 78 anos renovando formato, flertando com o regionalismo e mantendo exageros que já viraram parte do show.

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  • Da Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 08/02/26 14:00
Rainha das Rainhas consagra o Marajó e prova que tradição ainda dá espetáculo

Belém, PA - Mais uma edição do concurso Rainha das Rainhas do Carnaval, tradição “de luxo, beleza e fantasia” genuinamente paraense, foi realizada na noite de sábado, 7, no Hangar, em Belém. Aos 78 anos, o evento promovido pelo Grupo Liberal segue firme como vitrine do imaginário carnavalesco local - com tudo o que isso implica: brilho, excessos, inovação pontual e algumas derrapadas conceituais.


Em 2026, o título ficou com Layane Santos, candidata do Guará Park, que apostou no regionalismo e venceu ao transformar o Marajó e seus búfalos em espetáculo cênico. No ano anterior, o clube havia inovado ao levar a primeira mulher trans à disputa, ficando apenas em quarto lugar. Desta vez, a estratégia foi outra - e deu certo.


A rainha e a princesa


Layane foi a primeira candidata da noite a desfilar com tema regional. A fantasia “Araci: a metamorfose da artesã em búfalo”, assinada pelo estilista Matheus Souza, com coreografia de Walter Júnior e Júnior Freitas, tinha duas leituras: de um lado, tons terrosos inspirados na cerâmica marajoara; do outro, um universo multicolorido que homenageava a aparelhagem Carabao - O Búfalo do Marajó.


Sem economizar performance, a candidata subiu, desceu, girou, virou DJ e fez o Hangar “tremer”. Virou favorita instantânea do público e dos comentaristas. O resultado veio com os votos de seis jurados convidados pela organização, entre eles dois estilistas do Festival de Parintins.


Natural de Capanema, Layane venceu combinando simpatia, beleza e um sorriso permanente - atributos ainda decisivos no concurso.

A primeira princesa foi Carlen Baía, de Abaetetuba, representante do Clube de Engenharia. Com a fantasia “The Diva”, homenagem às rainhas das pistas da Era Disco, garantiu o segundo lugar com carisma semelhante ao da vencedora.


Exagera sem decepcionar


A transmissão do Rainha das Rainhas segue sendo um evento de resistência física do público. Se em outros tempos o resultado saía quase ao amanhecer, em 2026, com apenas 15 candidatas, às 2h30 da madrugada de domingo, 8, a campeã já era conhecida.

Antes disso, porém, um detalhe roubou a cena: as luvas brancas ¾ usadas pela apresentadora. Em pleno calor úmido de Belém, ninguém entendeu a escolha. 


Frouxas, deslocadas e chamativas, quase competiram com as candidatas. Aos que entenderam, entenderam. Se a intenção era “o Santana”, passou longe - mas atenção, isso deu.


Estilistas, pesos e cifras


Foi também o ano do estilista João Bosco, campeão em 2025 com o Clube do Remo. Em 2026, assinou quatro fantasias, inclusive de clubes rivais como Remo e Paysandu. Não levou o título, mas emplacou a candidata do Leão em quinto lugar, como quarta princesa.


As candidatas vieram de várias cidades do Pará: Abaetetuba, Bragança, Limoeiro do Ajuru, além do Bragantino, direto de Pérola do Caeté. Outro ponto que chamou atenção foi a faixa etária: ao menos duas candidatas tinham 30+, avanço considerável para um concurso historicamente restritivo. Houve também mãe homenageando o filho no desfile.


As fantasias parecem ter entrado em dieta: apenas duas ultrapassaram os 50 quilos. A maioria ficou entre 30 e 40 quilos. Os custos médios variaram entre R$ 40 mil e R$ 60 mil, mas duas ultrapassaram os R$ 100 mil, com penas exóticas e cristais Swarovski - padrão já conhecido das soberanas.


Erros que sempre têm


Como manda a tradição, os exageros também desfilaram. Teve candidata inspirada no Aranhaverso da Marvel, virando aranha no palco - estranho e deslocado. Outra misturou preto, prata e maquiagem inspirada no teatro Kabuki, sem que ninguém entendesse muito bem a proposta.

O público ainda assistiu a um carcará em cena com Maria Bethânia ao fundo, morte na caatinga, Medusa discursando sobre opressão feminina, seios siliconados chamando mais atenção que fantasias, estilista veterano retornando ao concurso e candidata que, sob o peso do figurino, mal conseguiu cruzar a passarela. 


Sem falar em dois clubes que resolveram perturbar o descanso eterno de Mozart e Beethoven na trilha sonora.


Tradição e ajustes


Como em outros anos, o presidente do grupo O Liberal, Ronaldo Maiorana, não apareceu nem para a entrega das premiações. A missão ficou com os filhos Ronaldo Jr. e Thiago, únicos representantes da família no palco.


Entre as mudanças, o RR abandonou as apresentações individuais e promoveu um evento único, com todas as candidatas reunidas em apresentação aberta no Mercado de São Brás. Também acabou o tradicional “café da Rainha”. Em 2026, a eleita terá direito a dormir mais e participar de um almoço com entrevistas para os veículos do grupo.


E, fechando a noite, teve rock doido com a aparelhagem Carabao - a mesma homenageada na fantasia da campeã. Coincidência ou roteiro bem amarrado, o fato é que, mais uma vez, o Rainha das Rainhas não decepcionou; nem quando errou.


Foto: Divulgação

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.