O invisível vice de Hana: estratégia ou uma tentativa de esconder o PT? Ranking dos Estados tem novo líder; Pará é o antepenúltimo e expõe a disparidade DC intervém no Pará, desiste de Daniel e já admite oferecer apoio a Hana Ghassan
ELEIÇÕES 2026

O invisível vice de Hana: estratégia ou uma tentativa de esconder o PT?

Com Dirceu Ten Caten longe do centro da campanha, chapa de Hana Ghassan administra uma equação delicada: precisa do PT e de Lula, mas talvez não queira mostrá-los o tempo todo.

  • 203 Visualizações
  • Da Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 30/08/26 09:00
O invisível vice de Hana: estratégia ou uma tentativa  de esconder o PT?
H


á uma pergunta começando a circular nos bastidores da campanha de Hana Ghassan: onde está o vice?

Alguns observadores consideram que distanciamento tem motivações que envolvem agro, igrejas e outros segmentos/Fotos: Divulgação.
 Oficialmente, Dirceu Ten Caten é o candidato a vice-governador na chapa encabeçada por Hana. Está tudo certo no papel. O PT confirmou, a Federação Brasil da Esperança confirmou, o MDB confirmou. Dirceu é deputado estadual, líder da bancada petista na Assembleia Legislativa e o nome escolhido pelo partido para representar a legenda na chapa majoritária.

 Na fotografia da candidatura, portanto, ele está lá. Na campanha, nem sempre - e é justamente aí que começa a história, com cada um no seu quadrado.

A movimentação pode ser perfeitamente explicada pela velha matemática eleitoral: dividir tarefas, ampliar presença territorial, aproveitar redes políticas diferentes e fazer a campanha chegar onde o candidato principal não consegue estar. Nada de anormal.

 Na semana passada, por exemplo, enquanto Hana circulava pelo Nordeste paraense, passando por Santarém Novo, Primavera, Quatipuru, São João de Pirabas e Salinópolis, Dirceu fazia seu próprio périplo pelo Marajó, em municípios como Portel, Breves e Ponta de Pedras.

Cada um no seu quadrado é uma estratégia possível - e até inteligente. Só que política tem dessas coisas: às vezes, a explicação mais óbvia não é a única possível.

 Precisa aparecer

 Hana precisa do PT. Precisa da militância, da estrutura partidária, da capilaridade construída pela legenda e, sobretudo, do eleitor que vota em Lula. Precisa também da ponte com Brasília e do discurso de continuidade da parceria entre os governos estadual e federal. Dirceu é justamente o elo mais visível dessa equação.

Só que Hana também precisa conversar com um eleitorado para o qual a imagem de Lula não é necessariamente um ativo eleitoral, e nessa fronteira a imagem física do vice começa a ficar invisível.

 Nas regiões oeste, sul e sudeste do Pará, entre setores ligados ao agronegócio, ao empresariado, ao conservadorismo e às igrejas evangélicas, a associação automática com o presidente pode produzir mais resistência do que voto. A campanha, então, teria encontrado uma solução bastante paraense para um problema nacional: cada santo no seu altar.

 O problema Lula

 Não é segredo que a eleição estadual terá de conviver com a eleição presidencial. E também não é segredo que Lula tem eleitores fiéis no Pará, mas enfrenta resistência em segmentos que estarão no radar de qualquer candidatura competitiva ao governo.

 Pesquisa Datafolha divulgada em agosto mostrou Lula à frente entre católicos, mulheres e eleitores de menor renda, enquanto Flávio Bolsonaro aparece melhor entre evangélicos e nas faixas de renda mais altas. O Pará não é uma planilha do Datafolha, evidentemente. Cada região tem sua própria lógica, seus próprios candidatos e seus próprios humores.

 Mas campanha eleitoral não trabalha com certezas. Trabalha com riscos.

E a pergunta é se, para reduzir esses riscos, a campanha de Hana estaria tentando separar a candidata do governo do vice petista - e, por tabela, de Lula.

Palanques e uma chapa

 Uma fonte da coluna ligada ao PT, que pediu reserva, resume a contradição de maneira mais direta. Segundo ela, o desafio é fazer a frente funcionar sem que um segmento assuste o outro. E, nessa operação, afirma, “nossa bandeira e nosso candidato à presidência têm sido sistematicamente escondidos quando convém”.

A declaração deve ser lida como opinião de uma fonte ligada ao partido, mas ajuda a iluminar uma questão que a agenda oficial não explica.

De um lado, está Dirceu: petista orgânico, identificado com a esquerda e ligado ao grupo de Beto Faro. Do outro, uma frente que reúne MDB, União Progressista, Republicanos, PSD, PSB, Avante, PSDB/Cidadania e a Federação Brasil da Esperança.

Não é exatamente uma reunião de condomínio. É uma coalizão eleitoral que junta gente de quase todos os apartamentos ideológicos do prédio.

E Hana precisa fazer todos caberem no mesmo elevador.

Vice que tem voto

Há ainda uma ironia nessa história. Dirceu não foi escolhido para ser vice apenas para preencher uma vaga. Deputado estadual, líder do PT na Alepa e com trajetória política construída no sudeste paraense, ele tem densidade eleitoral justamente em uma região onde a chapa precisará conversar com setores pouco inclinados a abraçar Lula de olhos fechados. Ou seja: o problema não é Dirceu ter votos. É o que vem junto com os votos.

Sua presença pode ser importante para levar a candidatura a territórios onde Hana precisa crescer. Ao mesmo tempo, sua identificação com o PT e com Lula pode exigir uma administração mais cuidadosa da imagem da chapa. A equação é delicada: estratégia ou esconderijo?

A campanha pode estar apenas fazendo o que toda campanha profissional faz: segmentando agendas, distribuindo tarefas e explorando a força individual de seus candidatos. Mas também pode estar fazendo algo mais sofisticado: dois palanques dentro da mesma candidatura. Hana como rosto da gestão, da continuidade administrativa e da frente ampla. Dirceu como ponte com o PT, Lula e a militância de esquerda.

Funciona? Talvez. O risco é outro. Ao tentar falar com todo mundo, a candidatura pode acabar dizendo coisas diferentes demais para públicos diferentes. E eleição tem uma peculiaridade: o eleitor pode até aceitar a estratégia de campanha, mas costuma cobrar a identidade do candidato. No fim, o “vice invisível” pode ser apenas uma técnica de distribuição territorial.

 Ou pode ser um sinal de que há uma marca política que a campanha considera indispensável nos bastidores - mas nem sempre conveniente na fotografia. A resposta virá das urnas.

Até lá, fica a pergunta: Dirceu está sendo preservado para render mais onde tem votos - ou escondido onde o PT pode tirar votos de Hana?

Só o 4 de outubro dirá.

Papo Reto

Se a quantidade de pessoas que abasteceu de graça em postos de combustível da Grande Belém para participar hoje da carreata do deputado Antônio Doido (foto) marcar presença, vai faltar espaço na região. Bondade de R$ 20 por veículo.

•A Cohab mandou setores para home office de 31 deste mês a 8 de outubro, alegando reforma nas suas instalações, mas servidores atentos enxergam outro “benefício”: expediente remoto em plena campanha eleitoral.

Segundo funcionários, o home office é um engodo: na prática, liberaria servidores de seus locais de trabalho justamente durante a campanha. A denúncia merece explicação.

 •Tem que ser no sofrimento? Tem. Mas perder um jogo em casa só para tornar tudo mais difícil é demais.

 •Agora é juntar os cacos, fazer a conta e correr atrás do prejuízo. Porque, no futebol, sofrimento faz parte - mas ajudar o adversário já é excesso de colaboração do professor Júnior Houdini Rocha.

 • Nem a Uepa escapa. A Prefeitura de Belém é acusada de não repassar, desde setembro de 2025, recursos à Escola do Marco-Uepa. A unidade atende milhares de usuários do SUS.

Sem dinheiro, não há milagre: o serviço para - e quem paga a conta é o cidadão. Afinal, saúde pública não combina com calote público.

•O roteiro não muda, é o de sempre: "não sei, não vi, não falei com ela" - mas, claro, com a elegância de quem já decorou o papel.

Nada como um presidente que não lembra do próprio telefone, mas tem tempo de sobra para absolver o filho, o ex-ministro e o senador antes mesmo da perícia começar.

•Enquanto a PF rastreia bilhões, o Planalto rastreia o controle remoto da Rede Globo. Fraude no INSS? Banco Master? Coincidências, meras coincidências!

No estranho circo da política brasileira, o mágico insiste que o truque é real e a plateia que finja que não viu a cartola.

Mais matérias OLAVO DUTRA

img
Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.