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Combustíveis: as sérias ameaças de desabastecimento e a encruzilhada do governo federal

A política interna de preços imposta pelo governo à Petrobras vem resultando num risco ascendente de desabastecimento de combustíveis, especialmente o diesel, em meio à escalada da guerra no Golfo.

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  • José Croelhas | Especial para a COD
  • 22/03/26 10:00
Combustíveis: as sérias ameaças de desabastecimento e a encruzilhada do governo federal

A grande mídia não repercutiu como deveria, mas nos últimos dias um fato incomum: pelo menos seis navios abarrotados de diesel, já em rota para o Brasil, desviaram o curso para outros destinos, aparentemente em fuga da política de preços do governo que vai deixando claro só ter olhos e caneta para a eleição presidencial. 


Ao "dar uma banana" às leis de mercado e manter os preços da gasolina e, principalmente, do diesel significativamente abaixo da chamada paridade de importação - que junta o preço do produto importado com os custos do frete e do seguro - o governo assume correr todos os riscos de perda de votos.


Em meados de março, essa defasagem já chegava a 67% para o diesel, ou R$ 2,40 mais barato por litro. Significa que o produto vendido pela estatal estava muito mais barato que o importado, criando uma assimetria "imperdoável" do ponto de vista técnico.


Com o preço interno mais baixo, os importadores privados não conseguem competir, afinal não faz o menor sentido comprar (caro) no exterior e vender com prejuízo no Brasil. Isto resultou num "line up" (volume contratado) de navios com diesel importado para abril de 2026 extremamente baixo, cerca de 300 mil m³, quando a necessidade mensal do Brasil beira 1,4 milhão de m³.


Para agravar o cenário, a Petrobras reduziu as cotas de venda para as distribuidoras em cerca de 20% a 30%, suspendendo os leilões de gasolina e diesel programados para março de 2026, sob a desculpa de precisar reavaliar os estoques. A medida surpreendeu o mercado e dificultou o planejamento das distribuidoras, que dependem desses certames para complementar o abastecimento do País.


A intensificação do conflito no Oriente Médio elevou os preços do petróleo e os custos de frete e seguro internacionalmente, aumentando ainda mais a defasagem de preços e a dificuldade de importação.


Embora Petrobras e ANP afirmem não haver risco de desabastecimento generalizado, já há relatos de faltas não tão pontuais, principalmente de diesel, nas regiões Norte e Nordeste, e em áreas que dependem mais de importação, como Recife (PE), Santos (SP) e Paranaguá (PR).


As distribuidoras Vibra, Ipiranga e Raízen, temendo a falta de produto, chegaram a reduzir de 10% a 20% as vendas para postos de bandeira branca e pequenos revendedores, priorizando suas próprias redes.


A questão agravou-se tanto que o Sindicato das Distribuidoras (Sindicom) disparou ofícios ao governo e à ANP alertando que o risco de desabastecimento é quase inevitável, citando "cortes nas cotas de fornecimento" e a "instabilidade no calendário de leilões" como fatores que comprometem a segurança do abastecimento.


Está claro que tentar conter a alta de preços com mera isenção de impostos federais (PIS/Cofins) e negociações com estados para reduzir o ICMS pode não surtir o resultado que todos esperam.


A Associação dos Importadores (Abicom) e as distribuidoras não têm dúvidas: a política de preços imposta pelo governo Lula à Petrobras é a causa central do problema, criando um desarranjo que desestimula a importação, podendo sim levar à falta de produto.


A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, atribuiu a tensão no mercado a uma "retenção de produto por parte das distribuidoras visando aumento de lucros". A acusação é gravíssima e merece ser investigada, no mínimo para que cada brasileiro conheça o rosto do seu verdadeiro vilão.


Foto: Agência Brasil

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.