Selic a 15% asfixia as famílias, provocando o acumulativo endividamento, já que os bancos impõem juros ainda mais abusivos às pessoas físicas
A taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano não é apenas um número abstrato; ela escancara e aprofunda problemas estruturais graves da economia brasileira, funcionando como uma espécie de "raio-X" das nossas distorções. Por trás desse índice imoral, o maior taxa em 20 anos, escondem-se impactos perversos que vão muito além do controle da inflação, atingindo em cheio a vida da população, a saúde das empresas e até mesmo as contas públicas.
Selic a 15% asfixia as famílias, ao tornar o crédito o mais caro do planeta, provocando o acumulativo endividamento, já que os bancos impõem juros ainda mais abusivos às pessoas físicas, que já superam a marca de 58% ao ano. Assim, quase 80% das famílias brasileiras estão endividadas, pois a inadimplência não para de crescer, consumindo a renda e engessando o consumo.
Destaco também o sufoco do setor produtivo com o chamado "custo Brasil", simplesmente proibitivo para quem quer produzir. Para as empresas, a taxa média de juros chegou a 24,5% ao ano, inviabilizando investimentos, expansão e até mesmo o giro operacional.
Setores como construção civil e indústria sentem na pele as armadilhas do mercado: 80% das indústrias, apontam os juros como o principal entrave ao crédito, enquanto o mercado imobiliário, por sua vez, já excluiu cerca de 800 mil famílias pelo mesmo fator.
Há que destacar também o colossal "dreno" de recursos públicos, pois o dinheiro que poderia ir para melhorar a saúde, a segurança, a educação e infraestrutura em geral acaba desviado para pagar rentistas.
Não à toa, o gasto do governo Federal com juros da dívida pública já chega a R$ 1,1 trilhão por ano, equivalente a quase 8% de todo o PIB brasileiro e que deixa de ser investido em políticas públicas para enriquecer quem tem dinheiro aplicado em títulos públicos.
A taxa de juros a 15% também cria um ciclo vicioso onde é mais vantajoso viver de renda do que produzir. Como explica o economista Ladislau Dowbor, "um investidor com R$ 1 bilhão em títulos públicos pode ganhar mais de R$ 400 mil por dia sem produzir absolutamente nada". Faz sentido.
Por que arriscar no negócio próprio se o dinheiro rende muito e sem risco no mercado financeiro?
A taxa de 15% está muito longe de ser apenas um instrumento de política monetária. Ela é o sintoma mais visível de uma armadilha fiscal e de um modelo econômico ultrapassado, que concentra renda, penaliza o trabalho e a produção, comprometendo o futuro do País ao transferir uma enormidade de recursos públicos para o mercado financeiro.
Portanto, a necessidade de equilibrar o crescimento econômico e justiça social com a estabilidade fiscal e controle da inflação exige muito mais que juros altos, que travam o investimento e aumentam o risco de falências. É necessário coragem e competência para operar cortes de gastos para obter a confiança do mercado impedindo o que está aí: um ciclo vicioso de baixo crescimento.
Foto: Agência Brasil
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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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