Entre uma ordem judicial e um voo que não aconteceu, a fuga mais comentada de Brasília tem ingredientes de um romance de espionagem e o nome de quem puxou os fios.
homem que não estava lá. Na sala de espera, quase ninguém parecia interessado no passageiro. Poucas pessoas espalhadas pelas cadeiras, luz branca, ambiente impessoal. Uma imagem começou a circular nas redes sociais, acompanhada de uma legenda categórica: Flávio Bolsonaro já estaria em solo americano.

Em poucas horas, a viagem virou operação; a operação ganhou codinome; e o codinome, naturalmente, ganhou um cérebro.
Marco Rubio, secretário de Estado de Donald Trump, foi apontado por Simón Levy, empresário e ex-integrante do governo mexicano, como o homem por trás da manobra. A Casa Branca entrou no roteiro antes que alguém apresentasse o roteiro.
Chamaram a operação de Alba. Em um romance de espionagem, seria o momento em que a câmera se afastaria da sala de espera e mostraria, do outro lado do vidro, um avião com motores ligados. Na vida real, ainda faltavam informações para saber quem estava naquela sala - e se ela sequer fazia parte da história.
Vinte e quatro horas. A cronologia, essa personagem sem passaporte, parecia ter sido escrita para um suspense. Na segunda-feira, 26 de outubro, Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse os passaportes à Polícia Federal em 24 horas e o proibiu de deixar o País.
A decisão veio à tona pelas próprias redes do senador. Na manhã seguinte, o prazo venceu sem a entrega dos documentos, e a Polícia Federal informou que os passaportes brasileiros haviam sido cancelados.
O problema é que a notícia da viagem já circulava enquanto as autoridades ainda tentavam esclarecer por onde ele teria saído.
A hipótese de um passaporte italiano apareceu nas especulações. A cidadania estrangeira, se confirmada, não resolveria automaticamente a questão: a ordem judicial mencionada nas reportagens abrangia os documentos que deveriam ser entregues e proibia a saída do País. O ponto central não era apenas qual documento teria sido apresentado, mas como a determinação judicial foi cumprida - ou contornada.
A PF não identificara, inicialmente, registro formal da saída. A Argentina também apareceu primeiro como território sem vestígios, depois como possível passagem. Um jato executivo, matrícula conhecida, permaneceu no centro da história. Houve relatos de que o avião não decolara quando se esperava; depois, vieram informações sobre uma partida durante a madrugada.
O relógio, que costuma ser testemunha na política, pode ser cúmplice na espionagem.
O nome de Rubio acrescentou a Washington à trama. Levy afirmou que o secretário americano teria articulado a saída. A alegação ganhou força nas redes e foi reproduzida por veículos de comunicação, mas a divulgação da acusação não equivale à comprovação de seu conteúdo.
A pergunta permanece: houve uma operação coordenada por autoridades americanas ou aliados políticos anteciparam, facilitaram ou simplesmente anunciaram uma viagem que já estava em andamento?
São hipóteses diferentes. Uma conversa entre políticos não é uma operação de inteligência. Um visto concedido por um governo não prova que esse governo tenha organizado uma saída clandestina. E uma imagem sem origem confirmada não é documento de embarque. A ficção permite preencher essas lacunas. O detalhe que escapa.
O episódio lembra histórias antigas dos serviços secretos: a extração discreta, o itinerário fragmentado, a informação plantada, o passageiro que aparece em um lugar antes de ser localizado no outro. Mossad, CIA e MI5 povoaram durante décadas o imaginário de operações em que o que se sabia era quase tão importante quanto o que se escondia.
Mas os serviços têm funções distintas, e a semelhança com um roteiro clássico não demonstra sua participação. Até aqui, não há prova pública de envolvimento da CIA ou de qualquer outro serviço secreto nessa viagem.
Talvez a verdadeira pergunta não seja quem comandou a Operação Alba, mas por que tanta gente se apressou em atribuir-lhe um comandante antes de esclarecer os fatos.
E sobra uma imagem: uma sala de espera quase vazia, um passageiro que pode ou não estar ali, uma ordem judicial descumprida e uma sucessão de versões que se atropelam. Nessas histórias, o segredo é descobrir quem controla a narrativa. Às vezes, basta observar quem consegue sair de cena enquanto todos ainda discutem onde ele estava (Nota do redator: Esta é uma ficção política inspirada em fatos reais).
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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