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Indústria do "não pode" trava projetos e amplia insegurança na região amazônica

Livro "A Maldição da Noz-moscada", de Amitav Ghosh, levanta debate sobre entraves ambientais, pressão e decisões tomadas longe da Amazônia.

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  • Da Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 17/03/26 17:00
Indústria do
A


antiga disputa colonial pelas especiarias asiáticas, que nos séculos XVI e XVII levou europeus a subjugar territórios e populações nas ilhas Banda, na atual Indonésia, volta ao debate contemporâneo como metáfora para compreender a Amazônia brasileira. A comparação aparece no livro The Nutmegs Curse, do escritor indiano Amitav Ghosh, obra que inspirou uma reflexão sobre o destino da maior região florestal do planeta e os impasses que cercam seu desenvolvimento.

 

Dilemas enfrentados hoje pela Amazônia com grandes projetos remetem ao Brasil colonial, casos da Ferrogrão e do Pedral do Lourenço/Fotos: Divulgação.

Segundo essa leitura, o modelo colonial que extraía riquezas naturais enquanto decisões e lucros eram concentrados em centros distantes guarda semelhanças com dilemas enfrentados hoje pela Amazônia. A região, rica em recursos naturais e potencial energético, convive com um emaranhado de restrições legais, pressões institucionais e disputas políticas que acabam produzindo um ambiente de forte insegurança jurídica.

O Caso Ferrogrão

Na prática, o debate aparece em sucessivos impasses envolvendo grandes projetos de infraestrutura e exploração econômica. Um dos casos mais emblemáticos é o da Ferrogrão, ferrovia planejada para ligar Sinop, em Mato Grosso, ao Porto de Miritituba, no Pará. O projeto, defendido por setores do agronegócio e da logística por reduzir custos de transporte e emissões de carbono, enfrenta há anos batalhas judiciais e questionamentos ambientais que impediram sua implementação.

Situação semelhante ocorre no setor energético. Embora a Amazônia concentre grande potencial hidrelétrico ainda não explorado, a construção de novas usinas enfrenta resistência crescente. Estudos citados por especialistas apontam que a região possui dezenas de gigawatts de potencial inventariado. Sem esses empreendimentos, argumentam defensores das obras, o sistema elétrico nacional pode depender cada vez mais de fontes térmicas movidas a combustíveis fósseis ou de tecnologias importadas de armazenamento de energia, como baterias de grande porte.

Decisões pontuais

Paradoxalmente, decisões pontuais acabam abrindo exceções nesse cenário. Um exemplo frequentemente citado é a implantação de uma usina termoelétrica a gás em Barcarena, no Pará. O empreendimento utiliza gás natural liquefeito importado e depende de navios regaseificadores estrangeiros, o que, segundo críticos, encarece a energia e introduz fontes fósseis em uma matriz elétrica regional predominantemente renovável.

O setor mineral também reflete os conflitos. Projetos como o da mineradora Belo Sun, em Senador José Porfírio, no Pará, aguardam há anos decisões judiciais e licenças ambientais. Caso semelhante ocorre com a exploração de potássio em Autazes, no Amazonas, mineral estratégico para fertilizantes que o Brasil continua importando em grande escala.

Pedral do Lourenço

No campo logístico, outro exemplo recorrente é o do Pedral do Lourenço, no rio Tocantins. A obra de derrocagem - retirada de rochas do leito do rio - permitiria a navegação contínua e ampliaria o uso da hidrovia Tocantins-Araguaia, considerada alternativa mais barata e eficiente ao transporte rodoviário. O projeto, entretanto, enfrenta há mais de uma década sucessivas discussões técnicas, ambientais e judiciais.

A mesma lógica se repete em iniciativas para estudos de dragagem em grandes rios amazônicos, como Tapajós, Tocantins e Madeira. Propostas chegaram a ser autorizadas, mas acabaram revogadas após pressões de organizações indígenas e ambientalistas.

A nova “indústria”

Para críticos desse modelo, o resultado prático é a consolidação de uma espécie de “indústria do não pode”, na qual sucessivas restrições acabam bloqueando projetos estruturantes sem que alternativas claras sejam apresentadas. O argumento central é que a região permanece submetida a decisões tomadas em centros políticos e institucionais distantes, enquanto suas populações continuam à margem dos benefícios econômicos gerados por seus próprios recursos naturais.

O debate, evidentemente, está longe de ser consensual. Ambientalistas alertam que a Amazônia desempenha papel crucial na estabilidade climática global e que grandes obras podem gerar impactos irreversíveis. Já defensores do desenvolvimento regional sustentam que a proteção ambiental não pode significar a paralisação permanente de iniciativas capazes de gerar emprego, infraestrutura e renda.

Entre esses dois polos, a Amazônia permanece no centro de uma disputa que mistura geopolítica, economia e meio ambiente - uma discussão que, à semelhança das antigas rotas das especiarias evocadas por Ghosh, ultrapassa as fronteiras do Brasil e ganha cada vez mais peso no cenário internacional.

E uma questão que permanece aberta: quem decide o futuro da Amazônia - e em benefício de quem?

Papo Reto

•O ministro Gilmar Mendes (foto), do Supremo Tribunal Federal, foi às redes condenar a divulgação de conversas privadas ligadas ao chamado “caso Master”, classificando a exposição como “barbárie institucional” e ataque à intimidade.

•A crítica veio em tom de alerta sobre limites constitucionais e proteção da vida privada.

O detalhe é que a própria plataforma X exibiu logo abaixo um aviso lembrando que a Lei Orgânica da Magistratura Nacional proíbe magistrados de comentar publicamente processos em andamento.

•Em tempos de ruído institucional, até a rede social resolveu citar a lei que deveria falar sozinha - ou, no caso, sem arroubos, por sua excelência.

O pré-candidato ao governo de Minas Gerais pelo MBL, Ben Mendes, publicou cenas de uma briga em que se envolveu na cidade de Betim, Região Metropolitana de BH, por - acreditem - não conseguir retirar um item comprado no local.

•Nem mesmo a mulher que tentou contê-lo escapou dos empurrões. Em seguida - e cheio de marra -, ele foi para as redes sociais justificar a atitude e vestir-se de uma razão reiterada pelo presidente nacional do partido, Renan Santos. Seria essa a solução para os problemas do Brasil?

Um edifício em construção na cidade de Porto Belo, litoral norte de Santa Catarina, mostra a tendência sobre o que pensam os arquitetos e ambientalistas para associar modernidade e preservação ambiental.

•O prédio terá uma floresta suspensa no 6º pavimento, integrada à área de lazer, que contará com 67 árvores frutíferas e espécies nativas da Mata Atlântica com até 7 metros de altura. Com isso, o empreendimento espera contribuir com a captura anual de 0,7 a 2,0 toneladas de CO₂.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.