Colchões de liquidez, capacidade tributária e um sistema financeiro resistente têm garantido ao País uma espécie de "blindagem contra o pior".
A ideia de que o Brasil “já deveria ter quebrado” vem do contraste de desafios crônicos como dívida alta, déficit fiscal, juros elevados, instabilidade política e a resiliência da economia real.
O Brasil não “quebrou” - no sentido de um calote total nas dívidas ou colapso do sistema financeiro - por alguns motivos estruturais.
Em primeira instância, destaco o papel dos impostos elevados e base ampla: o governo arrecada cerca de 33% do PIB. Mesmo com ineficiência, essa robusta arrecadação garante capacidade de pagamento da dívida pública, que é majoritariamente em reais e indexada a juros ou câmbio.
Friso ainda a importância das boas reservas internacionais: o Brasil tem mais de US$350 bilhões em reservas e isso permite honrar compromissos externos e intervir no câmbio, evitando crises de balanço de pagamentos como as dos anos 80.
Importante destacar ainda o significado de um mercado doméstico gigantesco como o nosso, com mais de 200 milhões de pessoas. A demanda interna e o setor de serviços sustentam a economia mesmo em crises externas. Ou seja, a economia não depende apenas de um único produto ou parceiro comercial.
Outro fator capital é que, após o Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal, os bancos brasileiros passaram a ser bem capitalizados e monitorados pelo Banco Central, evitando corridas bancárias ou crises sistêmicas como a de 2008 nos EUA.
O Brasil também possui um histórico respeitável de rolagem da dívida, com o Tesouro Nacional conseguindo sempre emitir títulos novos para pagar os antigos, mesmo a juros elevados. Isto quer dizer que, enquanto investidores confiarem que o governo pagará, mesmo que se endividando mais, não há quebra.
Um outro aspecto que acaba amortecendo os riscos de uma possível quebra são as políticas de transferência de renda – Bolsa Família, BPC, seguro-desemprego etc., que mantêm o consumo básico e evitam colapso social mesmo em recessões.
Finalmente, destaco a autonomia do Banco Central e o regime de metas, que deu previsibilidade à política monetária, reduzindo a desconfiança externa e controlando surtos inflacionários.
No entanto, “não quebrar” não significa saúde fiscal. O Brasil já teve calotes no passado (moratória de 1987, defaults estaduais nos anos 90). Hoje, o risco é outro, pois o País convive com dominância fiscal - dívida crescente que o BC tenta controlar com juros altos -, estagnação e perda de grau de investimento. Uma crise de confiança severa pode sim levar à necessidade de renegociação forçada da dívida, mas o governo ainda tem instrumentos, como o compulsório dos bancos, para postergar esse cenário.
Ou seja, o Brasil não quebrou por causa de colchões de liquidez, capacidade tributária e um sistema financeiro resistente, mas isso não é garantia para o futuro – depende de política fiscal crível e crescimento.
Foto: Divulgação
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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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