Estudo da Uepa mostra adaptação das redes criminosas à fiscalização, avanço da lavagem de dinheiro e impacto nas cidades e terras indígenas
dinâmica do garimpo ilegal na Amazônia mudou de forma acelerada nos últimos anos. Pressionadas pelas operações federais de desintrusão em terras indígenas, as redes criminosas abandonaram parte dos grandes maquinários e passaram a operar com equipamentos menores, mais discretos e de difícil rastreamento. O aparente “retrocesso técnico”, porém, esconde uma sofisticada adaptação logística e financeira.

Em municípios como Jacareacanga e Itaituba, no sudoeste paraense, o garimpo passou a moldar parte significativa da economia local. Pequenos comércios, oficinas, postos de combustível, embarcações, aeronaves e prestadores de serviço sobrevivem direta ou indiretamente da atividade ilegal.
Em Jacareacanga, a estrutura criada para dar suporte aos garimpeiros foi tão intensa que originou o bairro dos Alagados, hoje incorporado oficialmente ao município.
O estudo aponta que a expansão econômica dessas cidades acompanha o avanço do garimpo. Entre 2014 e 2023, o número de caminhões quase triplicou no município, enquanto a frota de caminhonetes e motocicletas também disparou. No mesmo período, o PIB local saltou de R$ 177 mil para mais de R$ 625 mil.
Para os pesquisadores, trata-se de uma “minero-dependência”: cidades inteiras passam a depender financeiramente da manutenção das invasões em áreas indígenas.
O levantamento também desmonta a antiga imagem do garimpo artesanal. Segundo a pesquisa, a atividade hoje opera integrada a esquemas de lavagem de dinheiro, fundos de investimento clandestinos e redes do crime organizado.
Operações da Polícia Federal, como a Carbono Oculto, Flygold II e Munduruku Log, revelaram conexões entre o comércio ilegal de ouro, tráfico de drogas, grilagem de terras e movimentações financeiras bilionárias. A estratégia atual envolve logística pulverizada: aeronaves menores, pistas clandestinas, embarcações rápidas e maquinário compacto que dificulta o monitoramento por satélite e radar.
Em fevereiro de 2025, a PF bloqueou R$ 24 milhões em uma operação voltada à estrutura de abastecimento dos garimpos em áreas Munduruku. Antes disso, outra investigação identificou movimentação de cerca de R$ 6 bilhões em comércio ilegal de ouro.
O impacto mais profundo recai sobre os povos indígenas. Os Munduruku - ao lado de Yanomami - e Kayapó, estão entre os grupos mais afetados pelo avanço do garimpo no País.
A pesquisa mostra que muitos jovens indígenas acabam atraídos pela renda imediata da mineração ilegal, abandonando atividades tradicionais como agricultura, pesca e extrativismo. Ao mesmo tempo, comunidades inteiras enfrentam deslocamento para periferias urbanas precárias, sem saneamento e expostas à violência.
“Há uma desterritorialização dessas populações, que passam a ocupar bairros precarizados próximos às cidades”, observa o pesquisador Fabiano Bringe, um dos autores do estudo.
A maior parte da mão de obra dos garimpos, porém, ainda vem de migrantes maranhenses e nordestinos submetidos a jornadas exaustivas, exposição ao mercúrio e ausência de qualquer proteção trabalhista.
Os pesquisadores alertam que a cadeia do ouro ilegal ultrapassa a Amazônia. Parte significativa do minério extraído clandestinamente segue para mercados internacionais, alimentando centros comerciais e joalherias na Europa, Oriente Médio e Ásia. Enquanto isso, os municípios garimpeiros convivem com crescimento desordenado, explosão da violência, contaminação ambiental e aumento da dependência econômica de uma atividade sustentada por estruturas criminosas cada vez mais sofisticadas.
O estudo conclui que operações policiais, embora importantes, não serão suficientes sem alternativas econômicas permanentes para a região e sem mecanismos internacionais de rastreabilidade do ouro comercializado no exterior.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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