Embora não massivo, o fenômeno social, que é complexo, desigual e obedece diferentes motivações, virou tendência sobretudo no Sul e Sudeste do País.
Especialistas convergem o entendimento de que o atual movimento de busca por melhor qualidade de vida em municípios do interior foi um efeito direto da pandemia de covid-19. O trabalho remoto, a partir da adoção forçada e em massa do 'home office', obrigou os profissionais do setor terciário (especialmente de classe média alta e alta) reconsiderarem sua localização, passando a fugir do caos urbano em busca de mais tranquilidade para viver.
O confinamento nas grandes cidades, que viveram altos índices de contágio e restrições severas, levou muitas famílias a buscarem rincões mais espaçosos, com mais natureza, ar puro e menor densidade populacional.
Nas cidades, o aumento do desemprego e a informalidade levaram parte da população a retornar a suas cidades de origem no interior ou a buscar custo de vida mais baixo.
Por outro lado, o avanço da conectividade em áreas rurais e periurbanas tornou a migração mais viável para quem depende de conexão remota.
Portanto, a migração para cidades pequenas e médias do interior foi consequência direta da busca por infraestrutura urbana combinada com sonho de tranquilidade.
Estados como São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina experimentaram crescimento populacional marcante em cidades do interior.
Famílias de maior poder aquisitivo adquiriram chácaras, sítios ou casas em zonas rurais, embora preservando vínculo profissional com a cidade, ou seja, aderiram ao chamado trabalho híbrido.
Trabalhadores informais e desempregados que retornaram a suas cidades ou comunidades rurais de origem buscaram apoio familiar e/ou rede de sustento para se reequilibrarem na vida.
Muitos alugaram propriedades no interior por meses, experimentando uma vida semi-rural, parte desses acabaram por se fixar no campo. Esse movimento, como já frisei, tem sido mais expressivo nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, próximas a polos econômicos.
Aqui no Norte e no Nordeste, os fluxos tradicionais de êxodo rural ainda predominam, embora também haja relatos de retorno.
Em muitos casos, a migração é para lotes urbanos em pequenas cidades ou condomínios fechados no periurbano, e não para a atividade agrícola propriamente dita. Muitas áreas rurais carecem de serviços básicos de saúde, educação, banda larga de qualidade e saneamento, limitando o movimento.
Pesquisas do IBGE já apontavam, desde antes da pandemia, uma desaceleração no crescimento das grandes metrópoles e uma evolução relativa e mais forte em cidades médias do interior.
Estudos do Ipeadata/Fundação João Pinheiro confirmam a aceleração dessa tendência pós-2020, enquanto empresas de logística e correios reportaram aumento expressivo no volume de mudanças interestaduais saindo de grandes capitais para o interior, sobretudo no período 2020-2022.
Ninguém, portanto, tem mais dúvida de que a pandemia de covid-19 atuou como o catalisador potente de uma tendência pré-existente, mudando a percepção de valor sobre a vida urbana e rural no Brasil. O movimento é real e impactante, mas seletivo em termos de classe social e perfil geográfico.
Ele está reconfigurando a relação entre cidade e campo, criando novos fluxos e demandas, mas sem inverter completamente o processo histórico de urbanização do país. O efeito de longo prazo dependerá de políticas públicas de infraestrutura digital, transporte e serviços no interior, e da consolidação do trabalho remoto e híbrido.
Foto: Divulgação/IBGE
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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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