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Povos Aquiry

Civilização no Acre tinha população equivalente a um quarto do Império Inca

Descoberta publicada nesta quarta-feira na revista científica Nature amplia em mais de dez vezes o número dessas construções conhecidas

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  • Da Redação | Com O Globo
  • 30/07/26 22:00
Civilização no Acre tinha população equivalente a um quarto do Império Inca

Rio de Janeiro, RJ - Centenas de estruturas monumentais erguidas por uma civilização que floresceu na Amazônia antes da chegada dos europeus permaneceram ocultas por séculos sob a floresta do Acre. Agora, graças ao uso de uma tecnologia de varredura a laser capaz de “enxergar” sob a copa das árvores, pesquisadores brasileiros e finlandeses localizaram 396 novos geoglifos - grandes obras de terraplanagem atribuídas ao povo Aquiry. A descoberta, publicada nesta quarta-feira na revista científica Nature, amplia em mais de dez vezes o número dessas construções conhecidas e reforça as evidências de que o sudoeste amazônico abrigou uma das maiores concentrações populacionais da América pré-colombiana.


O levantamento foi realizado com aviões equipados com lidar, sistema de sensoriamento remoto que utiliza pulsos de laser para produzir mapas tridimensionais do terreno. A tecnologia permitiu identificar estruturas ocultas sob áreas preservadas de floresta na região de fronteira entre Brasil e Bolívia, onde os geoglifos permaneciam invisíveis em imagens convencionais de satélite. Até agora, as únicas formações desse tipo conhecidas haviam sido identificadas em áreas desmatadas, onde o relevo ficou exposto.


Com os novos registros, o número de geoglifos conhecidos salta de 36 para 432. Ainda assim, os autores do estudo acreditam que esse conjunto represente apenas uma pequena parcela do patrimônio arqueológico da região. A estimativa é que mais de 20 mil geoglifos ainda permaneçam escondidos sob a vegetação, em áreas que ainda não foram mapeadas com a nova tecnologia.


Os geoglifos são grandes obras de terraplanagem, formadas por valas e aterros em desenhos geométricos de diferentes formatos e dimensões. Algumas estruturas têm poucos metros de largura; outras ocupam áreas superiores à de 15 campos de futebol. Arqueólogos acreditam que esses espaços eram utilizados para cerimônias, encontros e outras atividades coletivas do povo Aquiry, que não desenvolveu um sistema de escrita. O conjunto dessas construções constitui o principal legado material deixado por essa civilização.


População revista


Liderada pelo arqueólogo Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque, a pesquisa também revisa as estimativas sobre a população responsável por essas obras. Segundo os autores, os Aquiry podem ter reunido entre 1,25 milhão e 3 milhões de habitantes em seu auge, por volta do ano 200 d.C. A projeção leva em conta o enorme esforço exigido para erguer estruturas dessa dimensão sem ferramentas de metal nem animais de carga, inexistentes na região antes da chegada dos europeus.


“Estimamos que uma comunidade de aproximadamente 300 pessoas, incluindo cerca de 60 homens adultos aptos para o trabalho, conseguiria construir um geoglifo em um ano sem abandonar suas atividades de subsistência”, afirma Pärssinen. — A maioria dessas estruturas permaneceu em uso por mais de 200 anos, e algumas por mais de mil anos.


Além da construção propriamente dita, era necessário manter as áreas livres da vegetação, que rapidamente voltava a crescer. O trabalho de preparação do terreno também exigia conhecimento detalhado da floresta.


Segundo Evandro Ferreira, botânico da Universidade Federal do Acre e um dos coordenadores brasileiros do estudo, os Aquiry dominavam o funcionamento dos ecossistemas amazônicos e aproveitavam os ciclos naturais do bambu para abrir as áreas onde seriam construídos os geoglifos.


“No sul da Amazônia existem extensas florestas dominadas por bambu, cujo ciclo de vida dura cerca de 28 anos. Eles provavelmente identificavam áreas onde a planta estava prestes a morrer. Nesses locais, bastava uma queimada para abrir espaço à construção, já que o bambu enfraquecido e as árvores acabavam sucumbindo ao fogo”, explica.


Boa parte dos geoglifos recém-descobertos está em áreas preservadas dentro de unidades de conservação da região conhecida como Amacro - na divisa entre os estados do Amazonas, do Acre e de Rondônia -, uma das mais pressionadas pelo avanço do desmatamento na última década. O fato de tantas estruturas terem sido encontradas em áreas ainda cobertas por floresta indica que uma parte importante desse patrimônio arqueológico permanece preservada e reforça a possibilidade de novas descobertas nos próximos anos.


Quando portugueses e espanhóis alcançaram o sudoeste amazônico, no século XVI, a civilização Aquiry já havia desaparecido como organização política. Os geoglifos, em sua maioria, já tinham sido abandonados, e a população estava dispersa em aldeias menores, ancestrais de povos indígenas como os Apurinã e os Manchineri. Segundo Ferreira, integrantes dessas etnias ainda mantinham, poucos séculos atrás, a prática de abrir campos utilizando técnicas semelhantes às de seus ancestrais.


As razões para o desaparecimento dessa civilização permanecem desconhecidas. Novas escavações e análises dos geoglifos recém-identificados deverão ajudar a esclarecer como viveu e por que se desfez uma sociedade que prosperou por cerca de 1.500 anos e chegou a atingir um quarto do tamanho da civilização Inca.


‘El Dorado acreano’


Para os pesquisadores, os Aquiry podem ter inspirado parte das narrativas que deram origem ao mito de El Dorado. Não por cidades revestidas de ouro ou monumentos de pedra, mas pela existência de uma sociedade numerosa que transformou a paisagem amazônica por meio de grandes obras de terraplanagem.


“Quando portugueses e espanhóis subiram os rios da Amazônia, encontraram pequenos grupos indígenas espalhados pela floresta. Eles jamais imaginaram que os ancestrais dessas populações haviam construído um legado extraordinário. Hoje, graças aos geoglifos revelados pelo laser, temos a prova de que essa civilização existiu e prosperou durante séculos”, diz Ferreira.


Foto: Divulgação

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.