Episódio registrado no distrito semana passada coloca a capital do Pará em estado de alerta.
o último dia 2 de março, um deslizamento de terra afetou oito famílias do loteamento Recanto Verde, no distrito de Icoaraci, em Belém. O incidente aconteceu na madrugada de um sábado e, apesar dos danos e perdas materiais, não houve vítimas fatais. No total, 40 famílias seguem vivendo sob risco semelhante na área, ao ponto de a Defesa Civil do município sugerir que algumas delas deixem o local dado o alto grau de risco.

O episódio coloca Belém dentro de uma estatística tão preocupante quanto emergencial. Atualmente, 1.041 cidades brasileiras têm risco alto ou muito alto de deslizamentos de terra, cerca de um quinto de todos os municípios do País. O cálculo é do AdaptaBrasil, sistema do Ministério de Ciência e Tecnologia e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que projeta um crescimento acelerado do problema.
Segundo o AdaptaBrasil, que condensa diversos estudos e análises de riscos climáticos, variáveis socioeconômicas e informações urbanísticas, o Brasil possui 830 cidades com risco alto de deslizamentos de terra e 211 com risco muito alto. Em 2030, considerando as mudanças climáticas, o risco deve chegar a até um terço das cidades do Brasil, se nenhuma medida for tomada.
Juiz de Fora faz parte do primeiro grupo. Com nota 0,70 em uma escala de 0 a 1, a cidade mineira tem como principais fatores influenciadores a grande quantidade de moradias em área de risco e a topografia da região. Nas chuvas que devastaram a região, 65 pessoas morreram em Juiz de Fora e sete em Ubá, que também tem alto risco para deslizamento.
O mapa de propensão a desastres geo-hidrológicos do AdaptaBrasil mostra alguns padrões. Cidades mais pobres costumam ter riscos maiores, por isso o Sul tem proporção menor que o Norte e o Nordeste. A topografia e condições climáticas também são determinantes. Assim, a região Sudeste tem grande concentração de municípios sob risco, já que a Mata Atlântica tem muitas serras próximas ao mar.
Na média, as regiões Sul e Centro-Oeste têm risco baixo para deslizamentos, e o Sudeste, Norte e Nordeste, risco médio
“O problema é que a gente não tem, na maioria das cidades, estruturas adequadas para lidar com o clima que está mudando”, explica Jean Ometto, pesquisador do Inpe e coordenador do AdaptaBrasil. “No litoral há áreas montanhosas. Vai para a Região Amazônica, tem outro tipo de problema. Não tem serra em Manaus, mas lá há risco alto de deslizamentos por conta do local onde as pessoas moram. Evento climático se soma à situação socioeconômica, de ocupação desfavorável.”
A situação, que hoje já é preocupante, tende a piorar. Se atualmente um a cada cinco municípios brasileiros têm alto risco de deslizamentos, essa proporção pode ser de um a cada três em 2030, quando cerca de 1.800 cidades passariam a ter risco alto ou muito alto, segundo projeções do AdaptaBrasil.
O sistema usa modelos climatológicos internacionais para realizar a previsão, que tem duas possibilidades no painel: pessimista ou otimista, a depender da projeção de emissão de CO2. A variação é irrisória, principalmente na projeção em 2030, quando há inclusive um resultado melhor no cenário pessimista, devido ao grau de incerteza embutido.
O desastre em Juiz de Fora ocorreu três meses após a publicação do Decreto nº 12.652, que instituiu o Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil, apresentado pelo governo federal durante a COP30, em novembro do ano passado.
O PNPDC estabelece princípios e metas para os próximos dez anos, com foco em prevenção, mitigação, preparação, resposta e reconstrução, além de prever investimentos em mapeamento de áreas de risco e aprimoramento dos sistemas de alerta.
Entre as medidas previstas estão o mapeamento dos fatores de risco; a adoção de esforços sistemáticos voltados à redução do risco de desastres; o fortalecimento da capacidade de atuação em cenários críticos e da estrutura dos órgãos de Proteção e Defesa Civil; o aprimoramento da gestão financeira e orçamentária, com foco em planejamento; e a ampliação da participação da sociedade nas ações preventivas.
Segundo o Ministério das Cidades, R$ 32,6 bilhões foram investidos para mitigar os impactos causados pelos eventos climáticos extremos de 2023 até o momento. R$ 22,1 bilhões em obras de drenagem, R$ 4 bilhões para contenção de encostas e R$ 6,5 bilhões para o fundo de apoio à infraestrutura. Para Nassar, as três medidas que deveriam ser prioridade nacional nos próximos cinco anos para reduzir mortes e prejuízos causados por eventos climáticos são: educação da população, infraestrutura urbana e intersetorialidade política.
“A própria população não sabe o que fazer em um cenário de desastre, não sabe para onde ir, onde pedir ajuda. Então, a gente precisa educar a população nesse sentido. A infraestrutura urbana, mais especificamente a drenagem, é de suma importância, justamente para ter onde as águas da chuva escorrerem. E, claro, fomentar ações que buscam a intersetorialidade política, para que as secretarias, juntas, apoiem a Defesa Civil nesses cenários”, conclui.

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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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