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Três tristes tragédias: o ouro, a Polícia e a morte de Zeca Tatu, o homem que falava demais

Comunicador popular autodenominado “Língua de fogo” é eliminado por conta de denúncias e passa a integrar as estatísticas da organização Repórteres Sem Fronteiras.

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  • Por Olavo Dutra | Colaboradores
  • 24/09/23 11:00

Hernandes da Silva Alencar, o Zeca Tatu, tombou pelas mãos de poderosos incomodados em Itaituba, onde a bala continua falando mais alto/Fotos: Divulgação.


A

  

morte do comunicador popular Hernanes da Silva Alencar, muito conhecido no município de Itaituba como Zeca Tatu, demonstra que as coisas na região do garimpo continuam a ser resolvidas como nos velhos tempos: à bala. Várias delas acertaram a cabeça e outras partes do corpo de Zeca Tatu na noite da última sexta-feira, pouco tempo depois de ele se envolver, mais uma vez, em uma série de denúncias graves, mas também polêmicas, sustentadas apenas pela sua “língua de fogo”, como ele mesmo costumava se autodenominar.

 

 

Com isso, o comunicador colecionou muitos inimigos. Agora, cabe à Polícia descobrir qual deles seria responsável, ou responsáveis, pela morte de Zeca Tatu, que se apresentava como radialista, mas, de acordo com o Sindicato dos Jornalistas do Pará, no momento o comunicador não estaria vinculado a nenhum veículo oficial de imprensa.

 

O Sindicato informou ainda em nota que está apurando o caso e que, mesmo Zeca Tatu não sendo jornalista, por se tratar de um comunicador muito popular, vai encaminhar o caso para a Comissão de Liberdade de Expressão da OAB, que pode fazer um acompanhamento “com mais amplitude aos comunicadores populares”.

 

Tirados de cena

 

O fato é que, no Pará, assim como no resto da Amazônia, quem incomoda é calado, segundo levantamento divulgado pela organização Repórteres Sem Fronteiras, apontando que no último ano 62 casos de ataques a jornalistas foram registrados na Amazônia, sendo as vítimas 40 homens e 18 mulheres e quatro equipes. Em ao menos 13 casos, houve agressão física.

 

“Língua de fogo”

 

Como de hábito, no final do mês passado Zeca Tatu distribuiu mais um de seus áudios bombásticos de ataques coletivos. O áudio teve ampla distribuição nos aplicativos de mensagens por citar muitos nomes conhecidos na região de Itaituba, que teriam dado repercussão à recente prisão do comunicador, detido pela Polícia Militar portando maconha.

 

Nos áudios, Zeca Tatu cita o nome de cada personagem, acrescentando uma informação “reveladora” e completando que a pessoa não teria moral para falar dele, por praticar comportamentos que, na visão do comunicador, seriam mais abomináveis. Além de revelar meio alfabeto de nomes de empresários que seriam usuários de “pó”, o comunicador chegou a citar intimidades de alguns de seus alvos, como o fetiche de outro repórter que seria voyeur da própria esposa com outros homens e, para uma garota-propaganda da cidade, chegou a receitar, no áudio, um “fluconazol” para aplacar possíveis odores nas partes íntimas.

 

“Homens de botas”

 

Intimidades à parte, uma das denúncias feitas por Zeca Tatu é muito grave, supostamente envolvendo policiais militares, que teriam subtraído 20 quilos de ouro roubados por bandidos. Essa ação ficou subentendida porque, segundo a denúncia de Zeca Tatu, os bandidos que roubaram o ouro foram presos, mas a mercadoria teria desaparecido, situação que hoje também está sob investigação da Polícia.

 

Alto escalão

 

Em outro áudio, ele faz graves acusações ao chamado “alto escalão” da PM de Itaituba, que comanda os “homens de bota”, agentes da PM que seriam escalados para fazer a segurança do transporte do ouro. “Gente, eu fui procurado por alguns compradores de ouro da região garimpeira, e, segundo informações, quando eles trazem o ouro, são abordados pelos homens de botas, e os homens de botas, se o comprador de ouro está trazendo 500 gramas, eles cobram de 50 a 100 gramas”, diz.

 

E prossegue no áudio: “Segundo informações, é o alto escalão que cobra alguns valores para poder destacar eles para região garimpeira ou então para algum distrito. Há informações de que existe uma tabela. Tipo, para destacar um PM para determinado distrito, tem que ajeitar R$ 20 mil... Segundo informações, essa denúncia já foi feita ao Ministério Público, que está averiguando”, disse Zeca Tatu em um dos últimos áudios, antes de ser calado em definitivo.



 

Papo Reto

 

O governador Helder Barbalho vive um dilema cruel: o entorno quer rifar o prefeito Edmilson Rodrigues da reeleição e apostar em “alguém do MDB”.

 

Só quem se destaca no MDB é a secretária Úrsula Vidal (foto), que tem audiência na massa, mas não tem audiência na política.

 

Ao mesmo tempo, Edmilson terá o apoio do presidente Lula para se reeleger, o que implica em ter o apoio do PT. Como Helder administra isso?

 

Como ter um candidato do MDB batendo no candidato de Lula. O governador sabe que o risco de ter várias candidaturas pode acabar entregando Belém ao bolsonarismo - e isso seria pior do que ter Edmilson mais quatro anos na prefeitura.

 

O advogado Alexandre Buchacra se filiou ao MDB. Dizem que é pré-candidato a prefeito de Capanema.

 

Ex-juiz eleitoral e amigo do governador, Alexandre Buchacra foi prefeito de Capanema de 2005 a 2008 e é considerado um candidato ‘pesado’.

 

No atual governo, Alexandre Buchacra foi secretário-adjunto da Seduc e é o atual presidente da Fundação de Apoio para o Desenvolvimento da Educação Paraense.

 

De um atento leitor da coluna: o Crea-Pará é uma utilidade que caminha no entorno do inútil. As reivindicações por salários adequados aos termos exigidos pelos conselheiros da autarquia servem apenas para implicar com quem não é simpático ao chefe do momento.

 

E mais: só funciona para órgãos públicos. Dificilmente agora, em qualquer lugar do Pará, não haverá um engenheiro com salário inferior às propostas da entidade, autarquia fiscalizadora dos profissionais. Que não fiscaliza obras.

 

A situação do outrora poderoso Pará Clube é tão caótica que apenas 198 associados vêm pagando as mensalidades em dia.   Segundo o ex-presidente Almir Barra, agora o PC tem donos.

 

Falha nossa: a reportagem anterior, dissemos que Jader Filho, o irmão nº 1, seria uma possibilidade de candidatura à sucessão do irmão no governo do Estado.

 

Errado.  há jurisprudência impeditiva nessa situação e manifestação clara da Justiça pelo impedimento por ser parente direto - irmão, marido, mulher...

 

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.