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PSB garante legenda ao inimigo n° 1 de Helder e torna Cássio Andrade mera peça descartável

Executiva nacional decide que Daniel Santos irá disputar reeleição e frustra trama do presidente da legenda no Pará.

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  • Por Olavo Dutra | Colaboradores
  • 14/07/24 11:00
PSB garante legenda ao inimigo n° 1 de Helder e torna Cássio Andrade mera peça descartável
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avorito até em pesquisa de inimigos políticos, o prefeito de Ananindeua, Daniel Santos, do PSB, está apto, e disputará novo mandato à frente do Executivo municipal. A decisão unânime da Executiva Nacional de seu partido, nessa semana, era tão óbvia que surpreendeu apenas uma pessoa: Cássio Andrade.


Daniel ingressou no partido pelo ‘Marco zero', com Davi Alcolumbre, e graças a interesses políticos colaterais, inclusive do prefeito de Recife, João Campos/Fotos: Divulgação.
 

Dono da legenda no Pará por décadas, cujo espólio herdou de seu pai Ademir Andrade - hoje um latifundiário e aderente ao bolsonarismo -, Cássio Andrade ficou sem mandato ao perder as eleições, em 2022. Abrigado por Helder em uma secretaria secundária, desde então ele tenta manobras judiciais para retomar o mandato, que perdeu embora tenha disposto do Fundo Eleitoral e da estrutura de seu partido como um títere.

 

A esperança do ex-deputado passa, ou pela recontagem das sobras - que mexeria na correlação de forças do Congresso Nacional, o que quase ninguém quer -, ou pela cassação da chapa do PL, hipótese mais provável, mas que dificilmente seria votada às vésperas de uma eleição. Desse modo, parece que as coisas ficarão como estão, pelo menos até outubro.

 

Incenso, mirra e ouro

 

Cássio tinha como cacife principal em sua corrida pelo lugar de vice de Igor dar ao governador Helder Barbalho um mágico carregamento de incenso, ouro e mirra, como os Reis magos deram a Jesus: impedir a candidatura de Daniel Santos, prefeito mais bem avaliado do Estado e arqui-inimigo de Helder Barbalho. Trabalhou muito por isso, dividindo-se entre as caminhadas ao sol ao lado de Igor Normando para gerar imagens para as redes sociais e viagens a Brasília, onde tentava articular a queda da insurgente “República de Ananindeua”.

 

Se é ruim, não conta

 

Voltou de mãos abanando, mas não informou isso ao governador: seguiu alimentando esperanças que se esvaíram pela decisão unânime da Executiva de seu partido essa semana. O PSB não deixou nas mãos dos diretórios locais decisões majoritárias justamente para impedir que vilanias domésticas tirassem de rota nomes competitivos. O PT adota organograma similar.

 

Na corda bamba

 

Após o desfecho desfavorável que garantiu legenda ao inimigo número 1 do governador, a própria permanência de Cássio Andrade no comando do PSB paranaense tem data para terminar, como informam fontes socialistas em Brasília. Na renovação do diretório, com Daniel Santos reeleito, ficará difícil a um dirigente sem mandato sustentar essa posição.

 

“Partidos são comandados por políticos poderosos ou por prepostos de políticos poderosos”, esclarece o consultor de marketing, Pedro Mantovani. “Cássio não está mais em nenhuma dessas categorias”.

 

A acachapante derrota de Cássio na disputa pelo comando da legenda e na tentativa de impedir a homologação de Daniel Santos coloca em risco terminal sua pretensão de ser “o vice” na chapa de Igor Normando nas próximas eleições.

 

É que o gás acabou

 

Depois de uma movimentação agressiva, que incluiu caminhadas exaustivas, evento com centenas de figurantes para declarar apoio “do PSB” para o candidato de Helder, enquetes frustradas nas redes sociais e movimentação de bastidores para criar embaraços a Úrsula Vidal, uma das preferências do governador, possivelmente o gás de Cássio Andrade acabou.

 

Pesos e medidas

 

Com peso administrativo maior que seu peso eleitoral na gestão de Edmilson, do Psol - o então deputado detinha três secretarias -, Cássio passou quatro anos dirigindo a poderosa Secretaria de Urbanismo, onde colocou na titularidade um amigo de infância que até então só tinha administrado um pet shop especializado em aquários e peixes ornamentais. O órgão é responsável pelo controle e fiscalização das construções e alinhamentos prediais. Também é responsável por atividades referentes a projetos, execução e conservação de obras públicas; e análise e legalização das obras em geral. Contratos milionários, como o de iluminação pública, passaram por ali. E tudo foi entregue ao psbista por Edmilson de modo, por assim dizer, fraterno - “porteira fechada” no linguajar agrário.

 

Primeiro eu, segundo eu...

 

Mesmo assim, Cássio nadou para a outra margem e abandonou o navio de Edmilson tão logo os primeiros rombos na fuselagem do governo do Psol se apresentaram. Fez o mesmo com Daniel Santos, de quem partilhava a amizade pessoal e frequentava a casa, tão logo o prefeito de Ananindeua entrou em rota de colisão com Helder Barbalho - ou vice versa.

 

O jogo de sobrevivência de Cássio Andrade não tem espaço para nada além de seus próprios interesses.

 

O inimigo do meu...

 

Daniel Santos, alvo da 'cassada' de Andrade nos últimos meses, articulou seu ingresso no PSB na ponte aérea Macapá-Brasília e teve como principal articulador o senador Davi Alcolumbre, do Amapá. Alcolumbre decidiu ajudar Daniel em retaliação aos movimentos feitos por Helder no Amapá, que implicou na filiação de Antônio Furlan, prefeito de Macapá, ao MDB. Bem avaliado, favorito à reeleição, Furlan está para Alcolumbre como Daniel está para Helder Barbalho.

 

A face oculta

 

A nacionalização das eleições em Belém, devido à emergência da COP30 em 2025 e ao protagonismo nacional do governador paraense, tem uma outra face - oculta da maioria das pessoas: a disputa entre Helder e o prefeito de Recife, João Campos, pelo lugar de vice de Lula, em 2026. Campos é herdeiro político de Eduardo Campos, governador de Pernambuco que impôs uma dinâmica nova ao Estado e faleceu de modo trágico em agosto de 2014, aos 49 anos. Ele era neto de Miguel Arraes, fundador do PSB, justamente o partido escolhido por Daniel Santos para continuar sua carreira política e, quem sabe, disputar o governo do Estado em 2026.

 

Papo Reto

 

·  Os cantores líricos em Belém estão “em baixa”, ultimamente. Além de terem o cachê reduzido no quase cancelado Festival de Ópera do Theatro da Paz 2024.

 

·  Desde maio deste ano, para se ter ideia, eles amargam um provável calote aplicado pelo superintendente da Fundação Carlos Gomes, Gabriel Titan (foto)

 

· Naquele mês, durante o Festival Internacional de Música do Pará, eles cantaram na apresentação de ‘Floresta do Amazonas’, de Heitor Villa-Lobos. Dois meses depois, ninguém viu a cor do dinheiro, mas, os cantores de fora do Estado foram regiamente pagos. 

 

· Todo mundo está careca de saber que “santo de casa não faz milagres”, mas isso não faz deles desmerecedores de promessas, nem vítimas de calote.

 

· Belém-Rio Branco, no Acre, e Belém-Altamira, no Pará, são os trechos alcançados pela parceria entre as voadoras Azul e Gol para compartilhamento de rotas, que já está no ar

 

· Reitores de institutos federais, Cefets e do Colégio Pedro II estão recorrendo ao Congresso Nacional em busca de uma recomposição orçamentária se R$ 1,1 bilhão em 2025 para adequação da merenda escolar da rede de ensino técnico do País, que tem 1,5 milhão de estudantes matriculados, mais de 85% oriundos de famílias de baixa renda.

 

·  Falando nisso: no sul e sudeste, escolas servem feijão, arroz e carne na merenda escolar, mas, na Escola Teodomira Lima, bairro do Trevo, em Bragança, a merenda é à base de pipoca.

 

· Depois suas excelências travestidos de gestores públicos vão se queixar ao juízo da comarca, à falta de bispo, com o selo de “calúnia e difamação” e ainda pedem indenização por danos morais.

 

·  Obrigação de fazer, que deveria ser regra aplicável pelo Ministério Público nesses casos, nem pensar.

 

· Tudo indica que o pré-candidato a prefeito de Colares, Noé Palheta, não irá resistir ao rolo compressor do União Brasil, comandado pelo ministro Celso Sabino.


· A presidente do MDB local, Maria Lucimar, antevendo a queda, publicou nota de solidariedade a Noé, que pode ser “removido da disputa por meios desonestos e traiçoeiros”.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.