Luto

Peruano Mario Vargas Llosa, que escreveu sobre Canudos, morre aos 89 anos

Escritor monumental, Llosa foi candidato à Presidência de seu país e recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2010.

14/04/2025, 14:00
Peruano Mario Vargas Llosa, que escreveu sobre Canudos, morre aos 89 anos

Rio de Janeiro, RJ - Mario Vargas Llosa, o romancista peruano que combinou realismo cru com erotismo lúdico e retratos da luta pela liberdade individual na América Latina, além de escrever ensaios que o tornaram um dos comentaristas políticos mais influentes do mundo hispânico, morreu ontem, em Lima, aos 89 anos. Sua morte foi anunciada em um comunicado nas redes sociais por seus filhos, Álvaro, Gonzalo e Morgana. 


Laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2010, ele ganhou notoriedade ainda jovem com visões cortantes e repletas de gírias da corrupção, dos compromissos morais e da crueldade enraizada no Peru. E se juntou a um grupo de escritores que incluía o colombiano Gabriel García Márquez e o argentino Julio Cortázar, que se tornaram célebres nos anos 1960 como membros da “geração do boom literário” da América Latina.


Seu desprezo pelas normas da sociedade educada peruana lhe rendeu inspiração de sobra. Depois de ser matriculado, aos 14 anos, na Academia Militar Leoncio Prado, em Lima, Vargas Llosa transformou essa experiência em seu primeiro romance, “A Cidade e os cachorros”, um retrato crítico da vida militar, publicado em 1963.


O livro foi criticado por vários generais, incluindo um que alegou que o escritor havia sido financiado pelo vizinho Equador para enfraquecer o exército peruano - o que acabou ajudando a transformá-lo em um sucesso imediato.


Vargas Llosa, no entanto, nunca foi completamente seduzido pelo realismo mágico de seus contemporâneos. E se desiludiu com a perseguição a dissidentes promovida por Fidel Castro em Cuba, rompendo com a ideologia de esquerda que dominou durante décadas o cenário intelectual da América Latina.


Pensador político


Traçou seu caminho como pensador político conservador - frequentemente divisivo - e como romancista, que transformou episódios de sua vida pessoal em livros que repercutiram muito além das fronteiras de seu país.


Sua incursão na política acabou levando-o a se candidatar à presidência em 1990. Na campanha, defendeu o livre mercado, a privatização de empresas estatais e a redução da inflação por meio de cortes nos gastos públicos e demissões no funcionalismo público.


Ele liderou as pesquisas durante boa parte da corrida eleitoral, mas foi derrotado por Alberto Fujimori, então agrônomo pouco conhecido, de ascendência japonesa, que mais tarde adotaria muitas das políticas de Vargas Llosa.


Canudos e Washington


Desiludido com sua incursão fracassada na política, Vargas Llosa deixou o Peru novamente no início dos anos 1990, dividindo seu tempo entre uma base em Londres, onde tinha um apartamento que usava para escrever, e uma casa em Madri. Para desagrado de muitos no Peru, o rei Juan Carlos da Espanha assinou um decreto real em 1993 concedendo cidadania espanhola a Vargas Llosa, que, no entanto, manteve o passaporte peruano.


Além do Prêmio Nobel, Vargas Llosa recebeu outras distinções, incluindo o Prêmio Miguel de Cervantes, da Espanha, em 1994, e o Prêmio de Jerusalém, em 1995. Escreveu mais de 50 romances, ensaios, peças e obras de crítica literária ao longo de sua monumental carreira.


Alguns de seus melhores trabalhos examinaram as vicissitudes da história da América Latina, como “A guerra do fim do mundo”, de 1981, um gigantesco relato ficcional de um movimento messiânico no final do século XIX em Canudos, arraial localizado na Bahia.

Vargas Llosa pesquisou o livro em arquivos do Rio de Janeiro e em Salvador, e terminou de escrevê-lo no Wilson Center em Washington, em 1980, não muito longe dos campos de batalha da Guerra Civil Americana, um conflito que pode tê-lo ajudado a evocar a brutal violência com que os líderes aristocráticos do Brasil esmagaram Canudos.


“Fui envolvido por falcões voadores e estava a uma distância visível da varanda onde Abraham Lincoln falou para seus soldados da União à beira da Batalha de Manassas”, escreveu Vargas Llosa no prólogo do livro.


No entanto, enquanto poderia escrever elegantemente sobre qualquer lugar, foi o Peru que exerceu uma fascinação especial sobre ele, misturada, como ele escreveu uma vez, com “suspeita, paixão e raiva”, até mesmo um ódio “imbuído de ternura”.


“Herman Melville chamou Lima de a cidade mais estranha e triste de todas”, disse Vargas Llosa, referindo-se a uma passagem de “Moby Dick”, a um repórter do New York Times em 1989, quando parecia incapaz de se afastar da literatura e da introspecção, mesmo no calor de sua campanha presidencial. “Foi por conta da neblina e da garoa” Então, acrescentou, rindo: “Mas já não tenho tanta certeza de que a neblina e a garoa sejam de fato os grandes problemas de Lima”.


Foto: AFP

(Com O Globo)

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