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Oceano Atlântico invade rios e baías no Pará, altera a cor das águas e açoita a navegação

Nos últimos dias, águas com a coloração diferente, em Belém, e revoltas no Marajó e na região de Altamira sinalizam perigo.

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  • Por Olavo Dutra | Colaboradores
  • 20/10/24 11:00

Passageiro do Marajó relata perigo na baía, mas rios bravios fazem vítimas na região do Xingu e exigem maior fiscalização/Fotos: Divulgação-Arquivo.


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á sinais - sinais evidentes de que há algo mais nas águas dos rios e baías do Pará do que imagina o sujeito que visita a Estação das Docas, em Belém, ou Mosqueiro, mais adiante. Na Baía do Guajará, a Romaria Fluvial, por exemplo, viu águas estranhamento “esverdeadas” - e não foi “um milagre”.

 

O fenômeno repercutiu nas redes sociais, principalmente depois de uma foto divulgada pelo presidente Lula, que acompanhou a romaria. Existe uma explicação científica para o fenômeno, e preocupação com a segurança na navegação nos rios do Pará, especialmente no transporte de passageiros.

 

Invasão que vem do mar

 

A Baía do Guajará, em Belém, é influenciada de forma indireta pelas águas do Oceano Atlântico. A baía é alimentada principalmente pelos rios Guamá, Acará e outras pequenas bacias, mas, devido à proximidade com o estuário do rio Amazonas e a Baía de Marajó, as marés do Atlântico afetam suas águas.

 

Então, por conta da localização, a Baía do Guajará é afetada pelas marés do Oceano Atlântico, embora suas águas sejam principalmente de origem fluvial. A interação entre as águas doces e salgadas cria um ambiente de água salobra e mudança de cor, típico de regiões estuarinas, que caracteriza a dinâmica hídrica da baía. 

 

Essa proximidade com o Atlântico pode explicar a mudança de cor das águas da baía por ocasião da Romaria Fluvial. Isso já aconteceu outras vezes, incluindo o final dos anos 1980, quando a cor esverdeada e o gosto salgado das águas da baía chamaram a atenção com grande repercussão no noticiário nacional e internacional.

 

A distância entre o Oceano Atlântico e a Baía do Guajará é de aproximadamente 120 a 150 quilômetros, dependendo do ponto específico considerado. A Baía do Guajará está conectada ao sistema fluvial e estuarino da região, especialmente à Baía de Marajó, que por sua vez é influenciada diretamente pelas águas do Atlântico.

 

Essa conexão permite que as marés do oceano influenciem a baía, mas não há uma ligação direta por terra entre o Oceano Atlântico e a Baía do Guajará, já que a Ilha de Marajó está localizada entre eles, atuando como uma barreira natural.

 

Fenômeno exige estudos

 

A jornalista socioambiental e colaboradora da Coluna Olavo Dutra, Mariluz Coelho, pesquisadora especializada em Comunicação Científica na Amazônia e ligada ao Observatório de Risco da Universidade de Coimbra, em Portugal, pesquisa a região do Marajó e as comunidades que sofrem os efeitos do avanço do nível do mar.

 

Segundo a jornalista, a melhor explicação para a mudança de cor na baía ainda é a influência das águas do Oceano Atlântico, a partir da ocorrência das grandes marés. No entanto, ressalta que a análise desse fenômeno não pode ser simplista e precisa ser aprofundada.

 

“O aquecimento global, que já provocou o aumento do nível do mar, é um fator a ser analisado nesse fenômeno, que consideramos apenas um sinal. Estamos em meio a uma crise climática no planeta, com temperatura média global 1,5°C acima da era pré-industrial, ultrapassando os limites de segurança do Acordo de Paris. Isso elevou os níveis dos mares em todo o planeta. Sempre existiu um movimento natural entre o rio e o mar, mas essa lógica parece ter mudado. O oceano ganha força e está entrando mais intensamente na Baía do Guajará, através da Baía do Marajó”, explica.

 

Sinal de alerta ligado 

 

A intrusão de água salgada na Baía do Guajará pode impactar a flora e fauna locais, assim como as atividades econômicas, como a pesca e o abastecimento de água. Mas existe outro problema: a segurança na navegação.

 

O fenômeno da água esverdeada na Baía do Guajará coincide com situações atípicas no transporte de passageiros saindo de Belém. No último dia 2, a lancha “Expresso Golfinho”, da empresa Master Motors, teve uma pane após, segundo os tripulantes, atingir um tronco de madeira, abrindo um buraco no casco. O comandante conseguiu desviar para Mosqueiro, evitando o naufrágio, e a embarcação foi socorrida.

 

Clodoaldo Lima Figueiredo, que estava na lancha, conta que tudo foi muito rápido. "A água tomou conta da embarcação. O comandante deu o alarme e mandou colocar os coletes salva-vidas. Já estávamos fora da Baía do Marajó, chegando em Mosqueiro. Se isso tivesse acontecido na baía, não estaríamos aqui para contar a história", relata.

 

Em águas revoltas

 

Uma equipe da coluna enfrentou, durante a semana, a fúria das águas da Baía do Marajó em uma lancha de passageiros entre Belém e o Marajó, travessia que durou quase duas horas - duas horas de agonia, por assim dizer. Era dia de maré grande, a chamada "maré de lance", em período de lua cheia.

 

Ao entrar na baía, logo se percebe a presença das águas do Oceano Atlântico. As marés entre os dias 17 e 19 de outubro foram atípicas, por causa do mês, quando normalmente as águas se acalmam. A tábua de marés registrava as maiores marés dos últimos anos, oscilando entre 3 e 4 metros, considerando a mínima e a máxima.

 

Uma fonte das empresas que fazem o trajeto conta que a influência do Atlântico oferece risco por conta do inesperado. “Para navegar nessa situação, temos que ficar muito atentos, porque o movimento das águas está diferente, além das ondas que fazem a embarcação ‘bater forte’, com o risco até de quebrar. Mesmo para os mais experientes, está difícil a navegação”, relata.

 

Ao entrar na Baía do Marajó, a lancha foi contra a maré e bateu forte na subida e descida do movimento das ondas. A tensão entre os passageiros era visível. Uma passageira acostumada a viajar no trajeto disse que nunca havia enfrentado uma viagem assim. “Fiquei com medo”, declarou. Ela viajava com o filho.

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Também chamam a atenção às condições das lanchas que fazem viagens para o Marajó, todos os dias, indo e voltando, sem parar. São apenas duas empresas operando com duas embarcações, algumas com rachaduras nas janelas e nos cascos. As águas mais perigosas e a falta de manutenção das embarcações formam um cenário de risco, mas não se observam ações de prevenção por parte das autoridades.

 


 

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.