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Restaurantes: a crise silenciosa que tem devastado o setor de alimentação no Brasil

Dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) apontam que 70 mil estabelecimentos tenham fechado as portas desde o início da pandemia.

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  • José Croelhas | Especial para a COD
  • 07/09/25 14:10
Restaurantes: a crise silenciosa que tem devastado o setor de alimentação no Brasil

Afinal, o que está acontecendo com o setor de alimentação? A verdade é que não se trata de um simples e único colapso, mas de uma pressão constante e multifacetada a asfixiar negócios, sonhos e uma fatia vital da cultura e da economia do País.


O "cocktail explosivo" de causas começa com os custos operacionais, cada vez mais impactados pelos preços dos alimentos, bebidas - especialmente cerveja e refrigerantes -, além do gás de cozinha, comprimindo as margens de lucro. O pesadelo também contém uma boa pitada de insanas contas de energia elétrica, além do preço dos aluguéis.


A triste realidade é que muitos estabelecimentos contraíram dívidas durante a pandemia para se adaptarem (com serviço de delivery, estruturas ao ar livre etc.) ou simplesmente sobreviver aos apertos.


Mais recentemente, com as altas taxas de juros do Banco Central, o pagamento ou a mera rolagem de dívidas tornaram-se um fardo cruel e insustentável.


Pontue-se ainda a mudança no comportamento do consumidor, que passou a utilizar aplicativos como iFood, Uber Eats e Rappi, que já dominaram parte do mercado. Nesses casos, algumas taxas de comissionamento - que podem chegar a 30% por pedido -, acabam tornando o modelo economicamente inviável para muitos estabelecimentos. Ou seja, o cliente paga mais, o restaurante lucra menos.


Outro ponto a destacar é que as pessoas estão saindo menos para "viver a experiência" de um jantar fora e pedindo mais delivery, tanto por economia quanto por mera conveniência, tirando o valor agregado do ambiente e do atendimento.


Não posso deixar de mencionar o componente da inflação e do desemprego. De fato, comer fora ou pedir delivery tornou-se um luxo para muitas famílias, que reduziram drasticamente a frequência.


Outro fator importante é a concorrência brutal das cozinhas que só operam por delivery - as Dark Kitchens, que cobram apenas o preço dos alimentos e o marketing digital -, obrigando os restaurantes tradicionais a baixarem seus preços.


Finalmente, a gigantesca carga tributária sobre produtos e serviços, somada à complexidade burocrática para abrir e manter um negócio formal no Brasil, também tem pesado bastante na vida de quem empreende em restaurante, segmento que também sofre com a alta rotatividade de funcionários e, em alguns casos, com a dificuldade de encontrar cozinheiros, chefs e gerentes experientes, impactando diretamente na qualidade do serviço e dos pratos.


O cenário nebuloso pode ser mensurado pelos dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes: mais de 70 mil restaurantes fecharam as portas no Brasil desde o início da pandemia. E o ritmo só cresce, não livrando nem os negócios familiares tradicionais, com décadas de história.


Apesar do ambiente desolador, o resiliente setor busca se adaptar através da diversificação de receitas. Muitos restaurantes viraram mercearias finas, vendendo molhos, pães, cervejas artesanais próprias e até kits de refeição para preparar em casa.


O dia a dia tem mostrado que os sobreviventes são os que oferecem algo que os apps não têm: ambiente acolhedor, atendimento personalizado, conceitos temáticos fortes e eventos (como happy hours, jantares temáticos, música ao vivo), além de tecnologias para controle de estoque, redução de desperdício e gestão financeira mais eficiente. Muitos passaram a incentivar pedidos diretos, via WhatsApp ou telefone, oferecendo descontos para quem não pede pelos aplicativos, criando programas de fidelidade próprios.


A crise no setor de alimentação no Brasil é, de fato, silenciosa pois acontece todos os dias, sem grandes manchetes, por trás das portas de cada estabelecimento, que luta para pagar suas contas. É uma erosão lenta e constante de um setor que é muito mais do que econômico, é cultura.


Foto: Agência Brasil

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.