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Petróleo na margem equatorial: Belém não pode ser apenas coadjuvante

É preciso planejamento, investimentos e, sobretudo, capacidade de transformar oportunidades em atividades econômicas permanentes

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  • José Croelhas | Especial para a COD
  • 11/10/26 10:00
Petróleo na margem equatorial: Belém não pode ser apenas coadjuvante

O petróleo ainda não começou a jorrar comercialmente na costa do Amapá, mas uma nova fronteira econômica já começa a desenhar-se no horizonte amazônico. E Belém poderá ocupar posição estratégica nesse processo. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, apontou a capital paraense como possível base logística de apoio à exploração na Margem Equatorial.


A declaração merece atenção. Não apenas pelo petróleo, mas pelo que ele poderá representar para uma economia regional historicamente acostumada a produzir riquezas extraordinárias e receber, em contrapartida, benefícios modestos.


A exploração offshore exige muito mais que plataformas e sondas. Mobiliza embarcações, helicópteros, terminais portuários, armazenagem, manutenção industrial, engenharia, tecnologia, hotelaria, alimentação e milhares de trabalhadores especializados. É uma cadeia produtiva capaz de movimentar bilhões de reais.


Belém reúne vantagens geográficas, infraestrutura portuária e serviços que poderão ser ampliados para atender a essa demanda. Mas localização privilegiada, sozinha, não transforma uma cidade em polo de desenvolvimento.


É preciso planejamento, investimentos e, sobretudo, capacidade de transformar oportunidades em atividades econômicas permanentes.


A primeira providência seria estruturar um programa de desenvolvimento da cadeia de petróleo e gás, envolvendo governos, universidades, instituições de formação profissional e iniciativa privada. O objetivo deve ser preparar empresas e trabalhadores para disputar contratos que, sem essa organização, poderão migrar para outros centros econômicos.


Há também uma questão fundamental: a infraestrutura. Portos, acessos rodoviários, áreas industriais, energia, conectividade e serviços especializados precisam acompanhar as exigências de uma indústria altamente sofisticada.


Não se constrói um polo petrolífero apenas com discursos, placas inaugurais e fotografias de autoridades.


Outro desafio é impedir que o Pará reproduza a velha lógica dos grandes projetos amazônicos: extrair riqueza de um lado e concentrar seus resultados econômicos em outro.


A história regional oferece exemplos suficientes de empreendimentos bilionários que pouco contribuíram para diversificar as economias locais. A produção cresce, as exportações aumentam, mas a população continua enfrentando deficiências elementares de saneamento, mobilidade, educação e oportunidades profissionais.


É importante, entretanto, separar expectativa de realidade. A viabilidade comercial das descobertas petrolíferas ainda depende de novas perfurações e avaliações técnicas. Também serão indispensáveis licenciamento ambiental, segurança operacional e demonstração de sustentabilidade econômica.


Não existe desenvolvimento duradouro quando os riscos ambientais são tratados como detalhes inconvenientes. Na Amazônia, essa responsabilidade é ainda maior.


Mas a incerteza não justifica a imobilidade. Pelo contrário: oferece tempo para preparar a região antes que as grandes decisões empresariais estejam tomadas.


Belém precisa antecipar-se, qualificar sua mão de obra, atrair fornecedores, organizar áreas logísticas e construir condições competitivas para receber investimentos.


O petróleo poderá representar uma oportunidade histórica para o Pará. Entretanto, sua contribuição ao desenvolvimento dependerá menos da quantidade encontrada no subsolo marinho e mais da inteligência econômica aplicada à superfície.


Porque a verdadeira riqueza não está apenas no petróleo que se extrai, mas no desenvolvimento que permanece depois que ele acaba. E Belém não pode contentar-se em assistir, da janela, à passagem de mais um trem carregado de riquezas amazônicas.

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José Croelhas é economista,

consultor, escritor e palestrante

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.