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PESCA

Peixe de fora avança enquanto Pará ainda cobra regularização para construir cadeia

Tilápia vietnamita ganha espaço no mercado brasileiro ao mesmo tempo em que setor pesqueiro paraense esbarra na falta de políticas públicas.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 24/09/26 09:00
Peixe de fora avança enquanto Pará ainda cobra regularização para construir cadeia
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peixe que chega do outro lado do mundo começa a disputar espaço com quem produz dentro de casa. Enquanto a tilápia vietnamita avança no mercado brasileiro, pressionando preços e margens da piscicultura nacional, o Pará tenta organizar uma cadeia pesqueira que ainda convive com gargalos históricos de regularização, infraestrutura, produção e logística.

 

Na Fiepa, ministro Edipo Araújo recebe documento com propostas voltadas à regularização e modernização da cadeia/Fotos: Divulgação.

O contraste apareceu nesta semana em duas frentes. De um lado, dados do mercado mostram o avanço acelerado das importações de tilápia do Vietnã. De outro, representantes do setor pesqueiro paraense entregaram ao ministro da Pesca e Aquicultura, Edipo Araujo, um memorial técnico com propostas para a reconstrução e modernização da atividade no Estado.

No primeiro semestre de 2026, o Brasil se tornou o principal destino mundial da tilápia exportada pelo Vietnã. As compras brasileiras superaram US$ 35 milhões e representaram aproximadamente metade da receita vietnamita com as exportações da espécie no período. São Paulo e Santa Catarina concentraram mais de 80% das aquisições.

Segundo dados apresentados pela Associação Brasileira das Indústrias de Pescados, cerca de 8 mil toneladas de filés vietnamitas entraram no mercado brasileiro nos seis primeiros meses do ano. Em março, as importações chegaram a representar aproximadamente 11% da produção nacional mensal, de acordo com a entidade.

Sobre quem produz

A concorrência externa encontra uma piscicultura brasileira já pressionada por custos de ração, energia, mão de obra, tributos, licenciamento e exigências ambientais e sanitárias. Em 2025, segundo o Cepea, o preço médio real recebido pelo produtor de tilápia na região dos Grandes Lagos caiu mais de 12% em relação ao ano anterior. No atacado paulista, o preço real do filé congelado recuou quase 20%.

Em fevereiro de 2026, ocorreu um marco simbólico: pela primeira vez, as importações brasileiras de tilápia superaram as exportações nacionais. Naquele mês, entraram mais de 1,3 mil toneladas de filé vietnamita.

O movimento, entretanto, perdeu força no segundo semestre. Depois de atingir 1.956 toneladas em março, as importações caíram para 1.342 toneladas em junho e 957 toneladas em julho. A Peixe BR passou a projetar recuperação gradual dos preços com a redução das compras externas e a melhora sazonal do consumo.

A pressão, portanto, pode ter diminuído, mas o problema levantado pelo setor permanece: como assegurar condições de competição para uma cadeia brasileira que acumulou investimentos e ganhou escala nos últimos anos?

A conta paraense

É justamente nesse ponto que a agenda apresentada ao ministro da Pesca ganha importância para o Pará. Na quarta-feira, a Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) recebeu Edipo Araujo para uma reunião com representantes da indústria pesqueira. O setor entregou um documento com gargalos e propostas voltados à reconstrução, regularização e modernização da cadeia.

O presidente da Fiepa, Alex Carvalho, destacou a necessidade de planejamento e de políticas públicas capazes de fortalecer toda a atividade. O presidente do Sinpesca, Apoliano Nascimento, colocou a regularização entre os pontos mais sensíveis da agenda.

O ministro, por sua vez, defendeu maior articulação entre governo e setor produtivo e afirmou que a pesca e a aquicultura paraenses precisam assumir protagonismo. Os números apresentados por Araújo dão dimensão da atividade: o Pará possui mais de 435 mil pescadores registrados, cerca de 1.300 aquicultores e aproximadamente 2.300 embarcações.

É uma estrutura de grande dimensão, mas que ainda enfrenta dificuldades para transformar sua vocação natural em uma cadeia produtiva organizada, regularizada e competitiva.

O rio entra na conta

A equação ganhou outro componente: o clima.  O ministro alertou para a possibilidade de um El Niño de intensidade moderada a forte em 2026 e seus efeitos sobre chuvas, níveis dos rios e deslocamento das comunidades pesqueiras.

A estimativa apresentada pelo Ministério é de que pelo menos 222 mil dos 435 mil pescadores registrados no Pará possam sentir os efeitos das mudanças climáticas sobre a atividade. O governo federal trabalha com um plano de enfrentamento de R$ 1,3 bilhão, envolvendo infraestrutura, agricultura, agricultura familiar, transportes e ações específicas para pesca e aquicultura. Entre as medidas discutidas estão um possível auxílio extraordinário e a antecipação do seguro-defeso.

Produzir ou importar?

A discussão sobre a tilápia vietnamita ajuda a ampliar o debate. Importações podem aumentar a concorrência e oferecer alternativas ao consumidor. Mas, quando entram em um mercado no qual produtores nacionais já enfrentam queda de preços e custos elevados, o impacto sobre investimentos, empregos e capacidade produtiva precisa ser acompanhado.

Para o Pará, a questão ganha uma camada adicional. Antes de discutir apenas como competir com o peixe estrangeiro, o Estado ainda precisa superar problemas básicos que limitam a própria capacidade de produzir, transportar, regularizar e comercializar pescado. O peixe vietnamita percorre milhares de quilômetros para chegar ao consumidor brasileiro. O produtor paraense, muitas vezes, ainda enfrenta obstáculos no caminho entre o rio e o mercado.

A conta não é apenas sobre quem vende o peixe mais barato. É sobre quem consegue produzir, em que condições e com que estrutura para continuar produzindo amanhã.

Papo Reto

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.