Manobras garantem o cumprimento das metas, mas o problema de fundo se agrava: despesas obrigatórias crescem, comprimem investimentos e elevam a dívida pública
Não resta dúvida de que a principal dor de cabeça do governo em 2026 são os gastos obrigatórios - previdência e Benefício de Prestação Continuada - BPC. As projeções subiram bastante, obrigando a equipe econômica a buscar "compensações".
Só para o BPC a expectativa subiu R$14 bilhões; já para os benefícios previdenciários a escalada foi de R$11,5 bilhões acima do esperado.
Significa que, para cumprir o limite de crescimento de 2,5% acima da inflação, o governo já precisou bloquear quase R$60 bilhões.
Continuo insistindo que o grande nó fiscal do Brasil não é o tamanho do gasto em si, mas a sua qualidade e rigidez. As despesas obrigatórias vinculadas à Constituição - saúde, educação, previdência - estão consumindo quase todo o Orçamento. Simples, mas trágico assim.
Ou seja, enquanto as despesas obrigatórias sobem, as despesas discricionárias, como investimentos em obras, ciência, tecnologia, minguam, a ponto de a projeção para 2029 ser de que esses investimentos caiam para apenas 0,1% do PIB, inviabilizando completamente o crescimento econômico de longo prazo.
Já falei aqui que a absurda falta de espaço fiscal mantém os juros altos para conter a demanda, encarece o crédito e, claro, o custo de vida. Sem contar a mantenção do País na condição de refém de uma armadilha fiscal que impede a melhoria da infraestrutura.
O que nos reserva o futuro? Bem, no curto prazo o governo deve seguir usando todas as "gambiarras" legais - exclusões de gastos da meta, aumento de impostos etc. -, para tentar cumprir a meta de déficit zero.
Mas a frieza dos números obrigam os especialistas a ser praticamente unânimes: sem mudanças estruturais a conta não fecha, já que estabilizar a dívida pública precisaria gerar superávits anuais de mais de 2% do PIB.
A única saída duradoura passa por reformas consideradas impopulares e inaceitáveis para a esquerda: reforma administrativa a fim de modernizar o serviço público e reduzir despesas de pessoal; alterar a indexação de benefícios ao salário mínimo e rever as vinculações constitucionais de gastos em saúde e educação para dar mais flexibilidade ao Orçamento .
Como estamos em ano eleitoral, o que torna qualquer anúncio de corte de gastos ou reforma dura politicamente inviável, a expectativa dos analistas é que o ajuste "de verdade" fique para o novo governo que assumir em 2027, independentemente do partido .
Ou seja, o Brasil varonil está num "avião" fiscal. O piloto está usando manobras para mantê-lo no ar, mas o motor - crescimento de despesas obrigatórias - está superaquecido e o combustível - recursos para investir - está acabando.
Enquanto não houver coragem política para um "pouso forçado" via reformas estruturais, o País continuará voando com uma turbulência econômica que se traduz em juros altos, baixo crescimento e pouca margem para melhorar a vida do cidadão.
Foto: Divulgação/Governo do Distrito Federal
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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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