Na pressão, governo quebra monopólio da travessia do Marajó, mas atropela rito Supremo determina afastamento de dois conselheiros nomeados sem concurso no TCM Senador cassado pelo TRE sofre desgaste e críticas cada vez mais explícitas no PT
DE AFOGADILHO

Na pressão, governo quebra monopólio da travessia do Marajó, mas atropela rito

Decisão acelerada, sem edital nem consulta pública, mistura solução tardia para o transporte fluvial com urgência eleitoral no arquipélago.

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  • Por Olavo Dutra | Colaboradores
  • 03/02/26 11:00
Na pressão, governo quebra monopólio da travessia do Marajó, mas atropela rito
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evou quase oito anos - e a proximidade das urnas - para que o governo do Estado resolvesse enfrentar um dos problemas mais antigos e sensíveis do Marajó: o transporte fluvial. Uma questão que se arrasta entre naufrágios, mortes, filas intermináveis e um sentimento histórico de abandono. A solução, enfim anunciada, veio em circunstâncias extremas e sob forte leitura política.

 

Entidades de defesa da região prometem monitorar tanto as ações do governo relacionadas às novas concessões quanto à qualidade dos serviços/Fotos: Arquivo.

Movimentos de defesa da população local avaliam que a decisão não nasceu exatamente do compromisso com a região, mas da urgência eleitoral imposta à sucessão do governador Helder Barbalho. O pano de fundo é claro: a candidatura governista patina no Marajó.

Levantamento do Instituto Doxa, divulgado em dezembro, mostrou que a candidata do governo, Hana Ghassan, perde na região para o ex-senador Mário Couto, do PL. O dado virou peça central da visita de Helder ao arquipélago, no último dia 23, quando reuniu prefeitos e lideranças políticas.

O recado foi direto. Pelo menos dois prefeitos alinhados advertiram o governador: ou o governo resolve o gargalo do transporte fluvial, ou a candidatura não resiste à fúria da “Bahia do Marajó” - metáfora que, na região, está longe de ser exagero.

Decisão fulminante

A resposta veio rápida. Após reunião fechada com os gestores, Helder decidiu pelo caminho mais curto - e mais ruidoso: quebrou a concessão histórica da travessia do Camará, retirando a exclusividade da empresa Henvil Transportes e autorizando, sem aviso prévio, a entrada de duas novas operadoras.

Passam a atuar na linha Belém-Soure-Salvaterra as empresas Rodofluvial Banav e Master Motors. Ambas receberam prazo até o final do carnaval para montar suas estruturas e adequar a logística às novas determinações da Agência de Regulação e Controle dos Serviços Públicos, a figura carimbada Arcon. A Henvil segue operando, mas apenas com embarcações próprias.

Concessões “de gabinete”

A forma da decisão causou espanto - inclusive entre as empresas beneficiadas. Até agora, não há edital público nem contratos formalizados. As autorizações foram dadas por portarias, enquanto a Arcon corre para “adaptar” juridicamente a situação.

No encontro em que comunicou a decisão à Henvil, Helder foi taxativo: não haveria “jeitinho”. O concessionário teria argumentado que investiu recentemente na melhoria dos ferry-boats, mas o governador encerrou a conversa: “Passe a régua e mande o demonstrativo. O Estado ressarce”.

Com isso, a travessia passa a contar com três operadores, dois deles utilizando embarcações de propriedade do próprio Estado, em regime de comodato. Helder anunciou ainda que o governo retomará o controle dos portos do Camará e de Icoaraci e prometeu um novo chamamento público, com exigência de balsas modernas.

Também foi anunciado decreto para reduzir tarifas de carretas, caminhões, motocicletas e veículos em geral, ampliando a oferta e barateando o custo do transporte.

A queda do monopólio

Na prática, a empresa Henvil Transportes Ltda. foi retirada da travessia do Camará por portaria assinada pelo secretário de Infraestrutura e Logística, Adler Silveira, publicada em edição extra do Diário Oficial. Permaneceram na linha Banav e Master Motors, operando embarcações do Estado, como os ferry-boats “Teixeira Gueiros” e “Domingos Acatauassu”.

A Henvil, por sua vez, segue com duas embarcações próprias, entre elas o “Henvil I”, o mais moderno da linha, com capacidade para 1.200 passageiros, elevador, acessibilidade, sala vip e espaço para até 120 veículos.

Um histórico incômodo

A Henvil tem tradição no transporte fluvial, atuando no Marajó Oriental, Belém–Barcarena e até no Maranhão. Há décadas, opera os portos de Icoaraci e do rio Camará - ambos pertencentes ao Estado - arcando com manutenção, energia, limpeza, segurança e logística.

A empresa acumula condecorações da Marinha, cumpre determinações da Arcon e da Promotoria de Justiça e pratica as menores tarifas da travessia. Ainda assim, o descontentamento popular cresceu ao longo dos anos, especialmente entre caminhoneiros e comerciantes, que reclamam do monopólio e da falta de horários alternativos.

Vitória com ressalvas

Para o Movimento Viva Marajó e outros coletivos da região, o sentimento é ambíguo. Reconhecem a quebra do monopólio como avanço, mas listam críticas duras: não houve consulta às comunidades; a escolha das novas empresas ocorreu por critérios políticos; não houve chamada pública, como manda a regra; e as gratuidades legais precisam ser restabelecidas.

A Arcon agora terá a missão de organizar a nova logística, distribuindo passageiros e caminhões em horários distintos, para atender a uma demanda crescente, impulsionada também pelo turismo.

No Marajó, o transporte fluvial continua sendo mais que logística: é sobrevivência. A diferença é que, desta vez, o governo resolveu agir - não exatamente no tempo da população, mas no relógio da eleição.

Papo Reto

Entre os aprovados no vestibular da Uepa está um mestre - o mestre do carimbó. Mestre Catarino (foto) passou no vestibular, aos 70 anos de idade. Ele havia concluído o ensino médio pela modalidade Educação de Jovens e Adultos e foi aprovado no curso de Licenciatura em Música. 

•A conquista foi celebrada com muita festa e direito à cabeça raspada, no bairro da Sacramenta, onde ele mora. 

Indígena de Abaetetuba, Catarino é referência na cultura popular paraense e fundador do grupo de carimbó Oirandé Ara. 

•O TCM encaminhou ao MP uma Notícia de Fato envolvendo o presidente da Câmara Municipal de Bannach, João Carlos Ferreira de Souza.

A medida aponta possíveis irregularidades administrativas e indícios de improbidade, após o gestor permanecer no cargo mesmo diante de decisão contrária da Corte de Contas.

•Segundo o Tribunal, o presidente da Câmara ignorou determinação expressa que orientava a convocação de novas eleições para a Mesa Diretora, optando por permanecer na função.

Para o TCM, a conduta caracteriza desrespeito à ordem jurídica e aos princípios que regem a administração pública, como legalidade e moralidade. 

•O MP deve apurar responsabilidades cíveis e penais, investigar o caso e adotar as providências legais necessárias à realização de novas eleições.

O Exército incorporou no Rio de Janeiro a primeira turma com 159 mulheres recrutas.

•O Imposto de Renda Pessoa Física zero para quem ganha até R$ 5 mil já vale nos salários pagos este mês.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.