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Inflação 2026: o cenário desafiador ante o Real que não para de desvalorizar

A desvalorização da moeda pode ser tanto causa quanto consequência do cenário inflacionário brasileiro

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  • 25/01/26 14:00
Inflação 2026: o cenário desafiador ante o Real que não para de desvalorizar

Os desafios estruturais do Brasil não são nada desprezíveis, em meio a um cenário de inflação revisada para cima, tanto pelo Banco Central como pelo próprio mercado. Consequência direta disso, uma moeda cada dia mais fragilizada.


Essa tendência de "revisão altista" da inflação significa que os economistas estão revendo preços mais elevados que os previstos anteriormente, fruto de um Real depreciado tornando mais caras as importações. Isso vale para insumos industriais (fertilizantes, peças...) até bens finais (eletrônicos, veículos...), graças a pressões climáticas e agrícolas (secas e enchentes) reduzindo safras e elevando preços de alimentos "in natura" e commodities.


Pressões também originadas nas dúvidas sobre o equilíbrio das contas públicas e a trajetória da dívida, pródigos geradores de desconfiança. Considere-se ainda as inevitáveis pressões de demanda, já que um crescimento econômico (PIB) mais robusto que o esperado pode aumentar a demanda por bens e serviços acima da capacidade de oferta da economia.


Ou seja, a desvalorização da moeda pode ser tanto causa quanto consequência do cenário inflacionário brasileiro.


Se o Banco Central dos EUA mantiver juros altos (ou até os elevá-los) enquanto o nosso BC estiver em um ciclo de cortes na Selic para estimular a economia, o Brasil se torna menos atrativo para investimentos de renda fixa e o capital estrangeiro pode sair, retroalimentando a derrubada do Real.


E mais: a percepção de uma economia com baixo dinamismo de longo prazo, com produtividade estagnada, desestimula investimentos estrangeiros diretos de longo prazo, enfraquecendo a demanda estrutural pelo Real.


Além disso, as crises geopolíticas, recessão em grandes economias ou forte apreciação do dólar no mundo tendem a pressionar moedas de mercados emergentes como o Real.


Em resumo, inflação alta + Real fraco é a combinação perfeita para a perda do poder de compra. Preços elevados corroem o salário real, especialmente para os mais pobres, que gastam proporcionalmente mais com itens essenciais como alimentos e energia.


Com juros mais altos e por mais tempo, o Banco Central acaba sendo forçado a interromper qualquer ciclo de cortes da Selic ou até a elevar os juros novamente para combater a inflação e ancorar expectativas, freiando o crescimento econômico e aumentando o custo do crédito. 


Com o crescimento econômico sufocado e uma estagflação - combinação de inflação alta, juros altos e moeda fraca -, empresas adiando investimentos, o consumo ficando deprimido e o desemprego podendo subir, como aplicar vigor no crescimento? 


Mais do que nunca, o BC precisará agir de forma preventiva e comunicar com clareza. Terá autonomia suficiente para enfrentar os dragões da gastança, ainda por cima sendo 2026 ano eleitoral?


No outro quadrante o governo precisa impor um rigoroso controle dos gastos e a sustentabilidade da dívida, coisa absolutamente pouco provável de acontecer, a julgar pelos últimos anos de descontrole fiscal.


Uma coisa é certa: sem as medidas que aumentem a produtividade e o potencial de crescimento, para que a economia se torne mais eficiente e atrativa a investimentos de longo prazo, considero que o risco de um 2026 com inflação alta, juros altos, moeda fraca e crescimento medíocre seja bem elevado.


Foto: Divulgação

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.