Do Amazonas a Minas, passando pelo Pará, um rastro dos livros entra na mira da PF Silêncios que falam alto: Brasília finge não ver, e Pará se move rumo às urnas Pará acaba abaixo da meta nacional e expõe fragilidade na base em alfabetização
Justiça

Filha de PM vítima de feminicídio receberá pensão após morte da mãe

Geraldo Leite Rosa Neto, marido de Gisele, está preso preventivamente por feminicídio e fraude processual desde 18 de março

  • 40 Visualizações
  • Da Redação | Estadão conteúdo
  • 05/04/26 18:00
Filha de PM vítima de feminicídio receberá pensão após morte da mãe

São Paulo, SP - A filha da policial militar Gisele Alves Santana, vítima de feminicídio, irá receber pensão para filhos de servidores públicos mortos. O pagamento deve ser feito a partir de quarta-feira, 8. A mãe foi assassinada em 18 de fevereiro. O pedido do benefício foi realizado em 6 de março.


O tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, marido de Gisele, está preso preventivamente por feminicídio e fraude processual desde 18 de março. Réu na Justiça Militar e na Justiça Comum, ele nega os crimes e alega que ela atentou contra a própria vida com um tiro na cabeça.


A criança tem direito ao benefício até completar 18 anos. A São Paulo Previdência (SPPrev), responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de servidores públicos, afirmou que o processo "foi analisado e aprovado seguindo os trâmites regulares".


PM vai para a reserva


Na quinta-feira, 2, a Polícia Militar de São Paulo (PMSP) transferiu para a reserva o tenente-coronel de 53 anos. A medida havia sido solicitada pelo próprio oficial.


A transferência foi publicada no Diário Oficial do Estado. Segundo a portaria, Geraldo Neto irá receber a aposentadoria "com os proventos (salário) integrais".


A SPPrev afirmou que a aposentadoria de policiais militares é um ato administrativo de responsabilidade exclusiva da Polícia Militar. "Esse procedimento envolve validações administrativas e jurídicas próprias, o que pode resultar em prazos diferentes de conclusão. A atuação da SPPrev se limita à gestão e ao pagamento dos benefícios previdenciários."


Já a Polícia Militar defendeu seu compromisso com "a legalidade, a disciplina e a preservação dos valores que regem a atividade policial militar".


Em fevereiro, mês em que Gisele foi morta, o salário bruto dele foi de R$ 28.946,81, de acordo com o Portal da Transparência do Estado. Ele recebeu R$ 15.092,39 de salário líquido.


Em 18 de março, ele foi preso preventivamente por feminicídio. Com isso, perdeu o direito ao salário da Polícia Militar. Isso porque o decreto-lei paulista n.º 260 de 1970, determina que policiais militares presos não recebam remuneração da corporação


"Quando o militar é preso por qualquer tipo de crime, de imediato o salário dele é cancelado. Foi isso que foi feito", afirmou ao Estadão o secretário executivo da Segurança Pública de São Paulo, o coronel da PM Henguel Ricardo Pereira.


Dessa forma, mesmo na reserva, ele não receberá a aposentadoria neste momento.


Em março, a Corregedoria da Polícia Militar abriu um processo de expulsão do tenente-coronel. Se a expulsão for confirmada, ele perderá definitivamente o salário, sua patente e cargo. Caso ele seja condenado na Justiça comum, também perderá os mesmos benefícios.


A Secretaria da Segurança Pública afirmou que o processo continua em análise mesmo após a transferência do oficial para a reserva.


Como Geraldo Neto já tem mais de 30 anos de contribuição previdenciária, pode recorrer à Justiça para receber a aposentadoria pela SPPrev.


"É uma questão legal e constitucional. Ele contribuiu por mais de 30 anos. Não é uma questão facultativa da Polícia Militar. Não somos nós que estabelecemos isso. É a Constituição que estabelece que quem contribui no regime previdenciário tem esse direito", afirmou Henguel.


Entenda o caso


Gisele morreu com um tiro na cabeça na manhã de 18 de fevereiro, no apartamento em que ela vivia com o marido, o tenente-coronel Geraldo Neto. Só o casal estava em casa


Geraldo Neto contou à polícia que a mulher se suicidou depois que ele manifestou a ela o desejo do divórcio.


O caso foi inicialmente registrado como suicídio, mas foi modificado para morte suspeita após a família da vítima relatar que ela vivia uma relação abusiva, com excesso de controle e ciúmes por parte de Geraldo Neto.


A polícia afirma que a versão do tenente-coronel não se sustenta e que Gisele foi assassinada pelo marido, ou seja, foi vítima de feminicídio. A conclusão foi baseada em uma série de indícios técnicos que a perícia encontrou durante a apuração do caso.


Entre as evidências estão marcas de unha na região do pescoço e do rosto de Gisele; manchas de sangue dela no banheiro, na bermuda e na toalha de Geraldo Neto; a maneira como a arma foi encontrada na mão da vítima e o modo como o corpo da policial estava disposto no chão, indicando uma provável manipulação da cena do crime.


Outro importante elemento explorado pelos investigadores foi a relação do casal. A Polícia Civil extraiu as mensagens trocadas por Geraldo Neto e Gisele, e o que eles encontraram foi o retrato de um casal que vivia com constantes brigas, instabilidade, mas também o de uma mulher submetida a um casamento de muito controle, submissão e ciúmes.


Para a polícia, esses diálogos desmentiram a versão do tenente-coronel de que ele desejava o divórcio. O interesse pela separação, na verdade, partia de Gisele e era Geraldo quem impunha uma resistência a esse término.


A corregedoria da Polícia Militar também abriu uma investigação e tanto a Justiça Militar como a Justiça Comum decretaram a prisão do tenente-coronel. Geraldo Neto foi detido no dia 18 de março e aguarda julgamento.


Foto: Acervo pessoal

Mais matérias Polícia

img
Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.