Ex-secretário pode perder corrida por vaga no Legislativo por irregularidades na gestão de Saúde Denúncia de Renan Calheiros altera eixo do escândalo que soterra a República Avenida Liberdade estreia sob críticas ambientais e alguns riscos de acidentes
Dúvidas e medo

Ebola: qual o risco do novo surto chegar ao Brasil? Infectologistas respondem

Estágio mais alto de alerta da OMS foi decretado em meio ao surto que já acumula quase 600 casos e 140 mortes suspeitas no Congo e em Uganda

  • 31 Visualizações
  • Da Redação | Com O Globo
  • 23/05/26 16:00
Ebola: qual o risco do novo surto chegar ao Brasil? Infectologistas respondem

Rio de Janeiro, RJ - No último final de semana, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, decretou que o surto do Ebola na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda representa uma emergência de saúde pública de importância internacional, o estágio mais alto de alerta da organização.


O chefe da OMS disse que o cenário ainda não atende aos critérios de "emergência pandêmica", segundo a definição dos Regulamentos Sanitários Internacionais, mas destacou profunda preocupação com a amplitude e a rapidez da disseminação do vírus. O surto atual já acumula quase 600 casos e 140 mortes suspeitas.


No momento, especialistas explicam que, para o Brasil, não há risco de que o ebola se dissemine e provoque surtos como o observado nos países africanos. Para Leonardo Weissmann, infectologista do Hospital Regional Jorge Rossmann, em São Paulo, e mestre em Ciências, Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade de São Paulo (USP), o meio de transmissão do patógeno dificulta a sua maior dispersão pelo mundo:


— Embora a possibilidade de importação de um caso por viajante não possa ser completamente descartada em um mundo globalizado, o ebola não é uma doença de transmissão aérea. O contágio ocorre por contato direto com sangue, secreções e outros fluidos corporais de pessoas infectadas ou falecidas pela doença, o que limita significativamente sua capacidade de disseminação em comparação com vírus respiratórios, como influenza ou SARS-CoV-2, que causa a Covid-19.


É como também enxerga o cenário o coordenador da Infectologia do Hospital Brasília e head de Infectologia da Rede Américas, André Bon. Para ele, o risco de algum caso importado vir para o Brasil agora é “muito baixo”:


— As recomendações da OMS estão direcionadas às províncias e aos países que fazem fronteira com a região do surto. O que chama a atenção nesse momento é o contexto social da região, que dificulta o acesso de autoridades sanitárias para fazer diagnóstico e contenção do surto, e os casos identificados em outras províncias da RDC e de viajantes na Uganda que retornaram da RDC. Mas são questões mais regionais, e ainda não para países mais distantes.


Nesta quinta-feira, o diretor-geral da OMS afirmou que alguns fatores levaram à determinação de emergência internacional, entre eles o elevado número de casos e óbitos já detectados; o fato de a espécie do ebola em circulação, chamada de Bundibugyo, não ter vacinas ou terapias disponíveis e a identificação do vírus em grandes cidades da RDC.


Além disso, Tedros mencionou o registro de mortes entre profissionais da saúde, indicando transmissão associada aos serviços médicos; o fato de a região afetada, a província de Ituri, na RDC, ter um movimento populacional significativo e, por fim, ser uma área "altamente insegura", com a intensificação de conflitos desde o final do ano passado.


— O risco de o ebola chegar no Brasil é considerado baixo. Mas desde que a OMS declara uma emergência de saúde pública de importância internacional, traduz-se que existe risco a outros países. Então o risco não é zero, mas é baixo. O que me preocupa mais são os casos relatados em Uganda, porque são na capital, onde há mais conexões aéreas — diz a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo.


Os especialistas concordam que o fato de ser a espécie Bundibugyo e de o vírus estar se espalhando numa região com importantes desafios logísticos e de acesso aos serviços de saúde de fato justificam a atenção internacional dada ao surto.


— O mais importante agora é manter sistemas de vigilância epidemiológica preparados para identificar rapidamente casos suspeitos em viajantes procedentes de áreas afetadas, garantindo isolamento, investigação laboratorial e rastreamento de contatos quando necessário. A experiência acumulada com surtos anteriores demonstra que medidas de saúde pública bem executadas são capazes de interromper a transmissão e evitar a disseminação internacional da doença — afirma Weissmann.


Também em relação à vigilância, Rosana lembra que o período de incubação do vírus, tempo entre a infecção e o surgimento dos sintomas, é geralmente de 2 a 12 dias. E que apenas ao demonstrar os sintomas, o indivíduo passa a poder transmitir o microrganismo para outras pessoas.


— Dificilmente uma pessoa com quadro clínico tem condições de viajar. Mas, se uma pessoa vem dessas regiões e, aqui, ainda nesse período de incubação, manifesta sintomas da doença, é importante que as autoridades brasileiras estejam atentas e tenham um plano de contingência para esse caso importado.


Foto: AFP

Mais matérias Saúde

img
Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.