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Comércio mundial: a Europa entre a cruz chinesa e a espada protecionista

Em 2025, cerca de 5,9 bilhões de itens de baixo valor entraram na União Europeia pelo comércio eletrônico, mais de 90% provenientes da China

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  • José Croelhas | Especial para a COD
  • 11/10/26 10:00
Comércio mundial: a Europa entre a cruz chinesa e a espada protecionista

Durante décadas, a Europa construiu um modelo econômico confortável: produzir bens sofisticados, consumir produtos baratos fabricados longe de casa e defender padrões ambientais, trabalhistas e sociais cada vez mais elevados. Funcionou enquanto a China era, sobretudo, a fábrica barata do mundo.


O problema começou quando a fábrica resolveu virar concorrente. A China deixou de fornecer apenas camisetas, brinquedos e quinquilharias. Avançou sobre carros elétricos, baterias, painéis solares, máquinas, produtos químicos e tecnologia - setores em que a Europa imaginava conservar larga vantagem. Shein e Temu são apenas a face mais popular de uma transformação muito maior.


E a Europa descobriu-se entre a cruz e a espada. A França apertou o cerco contra a chamada ultra fast fashion, criando penalidades ambientais e restrições à publicidade. Há argumentos legítimos para isso. Produção descartável, impacto ambiental, condições de trabalho, segurança dos produtos e concorrência assimétrica não são fantasias protecionistas. São questões reais.


Mas existe outro lado que Paris e Bruxelas mencionam com menos entusiasmo: a indústria europeia está perdendo competitividade. E rapidamente.


Em 2025, cerca de 5,9 bilhões de itens de baixo valor entraram na União Europeia pelo comércio eletrônico, mais de 90% provenientes da China. A UE decidiu endurecer o tratamento dessas importações e eliminar vantagens concedidas às pequenas encomendas.


Não estamos mais falando apenas de moda. França e Alemanha também defendem instrumentos comerciais europeus mais rápidos contra práticas consideradas distorcivas, como dumping e subsídios. A preocupação é evidente: a China ganhou escala industrial suficiente para ameaçar setores estratégicos do continente.


É aí que aparece a grande contradição. A Europa quer energia limpa, mas depende de cadeias asiáticas essenciais à transição energética.


Quer carros elétricos acessíveis, mas teme a avalanche dos automóveis chineses. Quer inflação baixa, mas pretende encarecer importações baratas. Quer defender seus trabalhadores, enquanto seus consumidores compram alegremente produtos que a estrutura industrial europeia dificilmente consegue oferecer pelo mesmo preço.


Quer menos China - sem conseguir prescindir da China. Esse é o nó. Regular produtos que descumprem padrões sanitários, ambientais ou trabalhistas é obrigação de qualquer bloco econômico sério. Exigir reciprocidade também.


O problema começa quando a regulação funciona como anestesia para uma doença chamada perda de competitividade.


Nenhuma tarifa produz inovação. Nenhum decreto reduz sozinho o custo da energia. Nenhuma barreira alfandegária transforma uma fábrica cara numa fábrica eficiente. E nenhuma multa aplicada à Shein fará desaparecer a razão pela qual milhões de consumidores compram na Shein: preço.


O cidadão pode defender sustentabilidade numa pesquisa de opinião e, cinco minutos depois, comprar pelo celular uma blusa de oito euros. Entre a consciência ambiental e o orçamento doméstico existe uma instituição implacável chamada bolso.


A questão torna-se ainda mais delicada no terreno geopolítico. Os Estados Unidos endureceram sua estratégia diante da China e pressionam aliados a reduzir dependências estratégicas. Pequim, por sua vez, domina cadeias produtivas e insumos dos quais muitas indústrias ocidentais continuam dependentes. Romper custa caro. Continuar dependente também. 


Estamos falando de um continente que tenta descobrir como defender seu modelo econômico num mundo que deixou de obedecer às condições sob as quais esse modelo prosperou. Por décadas, os europeus ensinaram ao planeta como deveria funcionar o comércio global. Agora descobriram que outro jogador aprendeu o jogo, ganhou escala, derrubou preços e começou a disputar o campeonato inteiro.


A reação francesa contra a fast fashion pode ser ambientalmente defensável. Barreiras comerciais podem ser necessárias para enfrentar dumping, subsídios ou concorrência desleal. Mas nenhuma delas responde à pergunta decisiva: como competir?


Porque proteger uma indústria enquanto ela se moderniza é estratégia. Protegê-la indefinidamente da concorrência é apenas financiar sua incapacidade de enfrentá-la.


Essa é a encruzilhada europeia. Se abrir completamente as portas, pode assistir à erosão de parcelas importantes de sua indústria. Se levantar muros demais, encarece a vida do consumidor, reduz a concorrência e corre o risco de transformar sua fortaleza regulatória num confortável abrigo para empresas pouco competitivas.


Entre a cruz chinesa e a espada protecionista, resta uma terceira saída - certamente a mais difícil: voltar a ser competitiva. Porque é possível taxar uma camiseta chinesa, tarifar um carro elétrico e barrar uma encomenda. O que não se consegue taxar por decreto é a eficiência do concorrente.


Foto: Divulgação

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José Croelhas é economista,

consultor, escritor e palestrante

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.