Estudo exclusivo revela que preço médio do carro equivale a 9 anos de trabalho e coloca o País entre os mais caros do mundo
São Paulo, SP - Com R$ 60 mil, qual carro zero você consegue comprar no Brasil? Indo direto ao ponto: nenhum. Com esse valor, talvez consiga comprar um Honda Fit, um Toyota Etios ou um Ecosport, todos usados e com mais de 10 anos de fabricação, provavelmente.
Mas esse é o valor ideal para que um veículo seja considerado popular - ou seja, acessível - no nosso país, segundo o levantamento feito a pedido do Jornal do Carro para a Bright Consulting.
R$ 60 mil é o valor que melhor se encaixaria no rendimento médio da população, de aproximadamente R$ 3.546,50, olhando apenas para o poder aquisitivo e números globais, sem considerar tributos, custo Brasil, entre outros fatores. Se custasse isso, o carro zero quilômetro representaria aproximadamente 17 meses desse rendimento.
Contudo, é necessário compreender que, em bom português: o buraco é mais embaixo.
Carros no Brasil estão mais caros?
Carro mais barato do Brasil hoje, o Fiat Mobi custa R$ 77.290 - o equivalente a 22 meses da renda média brasileira. É um valor alto, entretanto, se compararmos com o salário mínimo de R$ 1.621,00, seriam necessários 48 salários - são quatro anos.
E aqui vale o adendo: sabemos que, no dia a dia, o carro é apenas um dos boletos a serem pagos. Porém, apenas para trazer uma dimensão do mercado, as contas consideram um salário cheio.
Preço do carro zero é mais alto no Brasil
No Brasil, o ticket médio de venda de veículos é de R$ 169 mil, segundo a Bright. Ainda tendo como base a renda média de R$ 3.546,50, isso equivale a 48 meses de trabalho. Em termos de salário mínimo, seriam necessários 105 meses - ou 9 anos de remuneração integral.
Isso coloca o Brasil entre os países com o preço mais alto para comprar um automóvel.
No Japão, o ticket médio corresponde a 9 meses da renda média; na Alemanha, 10 meses. Em outras palavras, o esforço necessário para comprar o veículo médio no Brasil é superior a cinco vezes o observado nesses mercados.
Mesmo na comparação com economias emergentes, a posição brasileira permanece desfavorável. O ticket médio equivale a 45 meses de renda na China, 44 meses na Argentina e 34 meses no Paraguai. A Índia, com 63 meses, é o único país da amostra pesquisada em que o esforço calculado pela renda média supera o brasileiro. Entre os oito mercados analisados, portanto, o Brasil apresenta o segundo maior comprometimento de renda para a compra do carro, atrás apenas da Índia.
Brasileiro precisa trabalhar quase 9 anos para comprar carro
Quando a referência passa a ser o salário mínimo, a dificuldade de acesso é ainda mais latente. O ticket médio brasileiro equivale a 105 salários mínimos mensais, contra 69 na China, 92 na Índia, 40 nos Estados Unidos, 38 no Paraguai, 19 na Alemanha e 18 no Japão.
A Argentina, com 136 meses, é o único país da amostra em situação mais desfavorável nesse critério do que o Brasil.
O carro popular no Brasil
A distância entre a garagem e o contracheque nem sempre foi um abismo tão profundo.
Em 2013, o icônico Fiat Uno Mille era vendido por R$ 23.900. Na época, o salário mínimo era de R$ 678, o que fazia o carro custar salgados 35 salários mínimos.
No entanto, quando ajustamos a régua para o salário médio da pessoa trabalhadora da época, que era de R$ 1.567 - segundo a PNAD 2013, o cenário muda drasticamente. Em 2013, eram necessários 15,2 salários médios para comprar um Uno zerinho.
O que mudou para o preço do carro ficar tão salgado?
A partir de 2014, houve a exigência legal de que 100% dos carros novos fossem equipados com airbags frontais e freios ABS. A regra acabou sepultando plataformas antigas e baratas, como a do próprio Uno Mille.
Durante a última década, novas obrigatoriedades de segurança, regras mais rígidas de emissões de poluentes e a sofisticação da cabine (com a chegada de motores turbo e centrais multimídia mais avançadas) elevaram ainda mais o custo de fabricação.
Entretanto, não é correto dizer que esse é o único fator para o encarecimento. Há uma complexa cadeia que envolve comportamento de consumo, entrada de novas marcas, custos de produção, impostos e, claro, o lucro das empresas que contribuem para a discrepância entre o bolso e o produto.
Foto: Divulgação/Fiat
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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