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SAÚDE PÚBLICA

Belém corre para construir "postões" enquanto os velhos problemas esperam

Prefeitura anuncia novas unidades, acelera obras e deixa no ar a pergunta: quem vai pagar a conta?

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 25/09/26 12:00

Prefeito ainda não conseguiu fazer o dever de casa na área de saúde, mas tenta alçar voos mais altos - com “postões”/Fotos: Divulgação-Rede Social.


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udo indica que a gestão do prefeito Igor Normando, do PSDB, está determinada a fazer da expressão “Postão da Saúde” uma das marcas de seu governo. Há cerca de dois meses, a Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria de Saúde (Sesma), iniciou uma espécie de cruzada pela construção e ampliação dessas unidades.

Não há dúvida de que Belém precisa de equipamentos de saúde maiores, melhores e capazes de atender à população. O problema começa quando a cidade já tem unidades precisando de atenção urgente - entre elas os PSMs da 14 de Março e do Guamá - e a prefeitura parece mais interessada em erguer novos prédios. Bem, quando a esmola é muita, o santo desconfia e a pergunta é simples: por que não cuidar primeiro, ou ao mesmo tempo, do que já existe?

Ponto por ponto

Na quarta-feira, 23, Igor Normando publicou nas próprias redes sociais - e não nas da prefeitura - um vídeo para anunciar o que chamou de “novidade 3 em 1”. Segundo o prefeito, depois de um diálogo com a comunidade, foi definido o local do novo Postão da Marambaia. “Não é só isso”, anunciou, acrescentando a reforma da Escola Hilda Vieira e um novo parquinho para as crianças.

A Agência Belém informa que a rede municipal de saúde passa por uma transformação para acompanhar a demanda de quem trabalha e de quem procura atendimento. Segundo a prefeitura, seis unidades estão recebendo intervenções: Cotijuba, Benguí, Guamá, Pratinha e Sacramenta, além da Estratégia de Saúde da Família Eduardo Angelim, em Outeiro. Os números divulgados pela própria administração dão conta de que Cotijuba já teria 90% da parte interna concluída; Benguí, 85%; Guamá e Pratinha, 25% cada; Sacramenta, 15%; e Eduardo Angelim, 20%. E vem mais.

A prefeitura afirma estar finalizando o orçamento de aproximadamente dez novos Postões da Família, com previsão de iniciar as obras até o fim deste mês e aí entra a pergunta impertinente: o que será sacrificado para que todos esses novos postões sejam construídos?

O caso Sacramenta

O caso mais delicado está na Sacramenta. A prefeitura passou a identificar o empreendimento como “Super Postão da Saúde Policlínica Municipal de Belém, ao lado do Parque da Cidade, no bairro do Souza”.

Só que o postão não fica no Souza; fica na Sacramenta. E também não está simplesmente “ao lado” do Parque da Cidade. A obra ocupa área vinculada à Praça Dorothy Stang, justamente o espaço que vem mobilizando moradores e frequentadores contrários à intervenção.

A mudança de endereço parece pequena – mas não é. Ao deslocar a localização para a referência do Parque da Cidade e do bairro do Souza, desaparece da comunicação oficial a palavra que incomoda: praça.

O Movimento Defenda a Praça Dorothy Stang afirma que a comunidade não foi ouvida antes da decisão e questiona a utilização de parte do espaço público para a construção da policlínica. A prefeitura responde que a proposta reúne diferentes estruturas dentro de uma mesma estratégia: unidades territoriais mais preparadas, postões com maior capacidade para acomodar equipes e uma Policlínica para ampliar a oferta de serviços especializados. 

Tudo muito bonito no papel, mas permanece a pergunta que a propaganda não responde: para construir um equipamento público de saúde é preciso diminuir outro espaço público destinado ao esporte, ao lazer, à cultura e à convivência?

A praça que reage

No domingo, 20, a Praça Dorothy Stang virou território de esporte, cultura e mobilização popular com a realização do The Best Trick Belém Radical. BMX, skate, patins street, hóquei e ações de inclusão de pessoas com deficiência ocuparam o espaço em uma programação que, segundo os defensores da praça, foi também um ato em defesa do espaço público.

Os moradores lembram que a praça surgiu como contrapartida relacionada ao combate à violência depois da construção do elevado Daniel Berg, no cruzamento das avenidas Júlio César e Pedro Álvares Cabral. Em julho, porém, veio a surpresa.

Um muro cercou parte da praça. Árvores foram removidas, bancos e passeios foram quebrados e, segundo os moradores, foram os próprios trabalhadores do canteiro que informaram que ali seria construída uma policlínica. A população reagiu. Há perfil nas redes sociais em defesa da praça e abaixo-assinado circulando na internet.

O movimento também manifesta preocupação com o que considera uma mudança de conceito na gestão do espaço público. Uma das pessoas ouvidas pela mobilização chegou a levantar a hipótese de que, no futuro, a administração da área possa ser entregue a uma empresa privada. É uma suspeita, não uma decisão anunciada pela Prefeitura. Mas revela o grau de desconfiança produzido pelo projeto.

 Parece coincidência

Há outro episódio que chamou a atenção dos integrantes do movimento.

No dia seguinte ao evento esportivo realizado na praça, segundo eles, houve uma tentativa de invasão do perfil mantido no Instagram em defesa da Dorothy Stang, com alteração da senha. A conta foi recuperada, mas o episódio aumentou a preocupação de quem já vinha questionando a obra. Coincidência? Pode ser - mas é justamente em situações assim que a transparência pública deixa de ser favor e passa a ser obrigação.

Enquanto isso...

Enquanto os novos postões avançam, a velha rede continua cobrando atenção. Os serviços municipais acompanham com perplexidade o planejamento da gestão Igor Normando para fechar o PSM da 14 de Março e contratar, em substituição, um hospital privado. A Justiça já proibiu a Prefeitura de levar adiante a medida nos termos pretendidos. Ainda assim, a ideia de substituir a estrutura pública por um modelo contratado junto à iniciativa privada permanece no centro das preocupações dos servidores.

Médicos já deixaram a unidade ou foram desligados, segundo relatos da categoria, depois que uma nova empresa de “gerenciamento de escala médica” assumiu contrato de valor milionário. A avaliação dos trabalhadores é que a redução de salários e direitos seria utilizada como instrumento para aumentar a margem de lucro da empresa. A prefeitura tem o dever de explicar o modelo, o contrato, os valores envolvidos e o impacto sobre a assistência, porque há uma contradição difícil de esconder.

De um lado, a administração anuncia uma dezena de novos postões, reformas, policlínica e estruturas “transformadoras” para a saúde; de outro, unidades que já existem enfrentam problemas, servidores reclamam do sucateamento e um dos principais prontos-socorros municipais está no centro de uma disputa sobre seu futuro.

A conta chega

Nesta sexta-feira, 25, o funcionalismo de Belém fará uma live, às 19h, para discutir o que classifica como sucateamento do serviço público e a situação financeira dos servidores. Na quarta-feira, 30, a partir das 10h, está prevista uma paralisação com ato público em frente à Secretaria de Gestão e Planejamento, na avenida Governador José Malcher. É mais uma pressão sobre uma administração que tenta transformar os postões em símbolo de sua gestão. E talvez seja justamente aí que esteja a questão mais importante.

Belém precisa de novos equipamentos de saúde, mas precisa também dos antigos funcionando. Prédio novo rende inauguração, fotografia e discurso. Quem paga a conta - e o que será deixado para trás - é que ainda precisa ser explicado.

Papo Reto

 •Enquanto o Sinjor declara apoio irrestrito à candidatura de Lula, do PT, a diretoria Regional do Tapajós do próprio sindicato anunciou apoio a Flávio Bolsonaro, do PL. 

•Os três dirigentes dizem agir de forma clara e independente. Independência, pelo visto, também pode ser regional – e o Baixo Amazonas tem expertise.

•Às vésperas da eleição de 4 de outubro, o governo do Pará resolveu pagar o bônus atrelado ao desempenho no Ideb. Sintepp e Seduc já discutem trocar a bonificação pela Gratificação de Desempenho da Atividade de Ensino. 

•A crítica é direta: bônus que não entra na aposentadoria parece mais prêmio de ocasião que valorização permanente.

•A Seduc informa que, em julho, repassou mais de R$ 91,9 milhões, pelo Prodep, diretamente à autonomia financeira e pedagógica de 708 escolas estaduais. O dinheiro é para as escolas. O bônus, para quem? Eis a diferença.

•A 36ª Bienal de Arte de São Paulo chega nesta sexta-feira, 25, ao Museu de Arte de Belém, com entrada gratuita. Ótimo. Só falta combinar com o Mabe, que terá exposição patrocinada pelo Instituto Cultural Vale, mas funciona até 16h30 durante a semana e até 13h nos fins de semana. 

•Sem funcionários suficientes para orientar o público, arte contemporânea corre o risco de virar exposição autoguiada.

•Em Santarém, o Ministério Público do Trabalho conseguiu liminar contra o Estado do Pará por assédio eleitoral envolvendo trabalhadores terceirizados do Centro de Convenções Sebastião Tapajós. 

•Segundo a investigação, uma servidora da Setur teria criado grupo de mensagens para apoiar candidato a deputado estadual, pressionando terceirizados a divulgar material de campanha e vinculando o apoio à manutenção dos empregos. Emprego público ou cabresto privado? A Justiça que responda.

•E, para terminar sem assédio, bônus ou buraco: neste sábado, 26, o céu de Belém estará em cartaz. O Centro de Ciências e Planetário do Pará promove observação da Lua e do céu noturno, das 19h às 21h30, no jardim do Museu do Instituto Evandro Chagas, na Almirante Barroso. 

•Entrada gratuita, com documento de identidade. Afinal, há dias em que é melhor olhar para as estrelas do que para a política.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.