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A crise em cena: o drama silencioso de 9 milhões de empresas no Brasil

Em janeiro de 2026, o Brasil registrou 8,7 milhões de empresas negativadas, com uma dívida média superior a R$ 23 mil

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  • José Croelhas | Especial para a COD
  • 23/08/26 10:00
A crise em cena: o drama silencioso de 9 milhões de empresas no Brasil

Diante de 9 milhões de CNPJs negativados e uma taxa Selic pairando perto dos 14,25%, a pergunta não é se a economia brasileira caminha para uma encruzilhada, mas qual caminho será escolhido - e a que preço. A cena econômica atual é um melodrama de três atos: juros nas estrelas, recordes de recuperações judiciais e um Estado cada vez mais refém da própria dívida.


O Brasil vive o paradoxo de combater a inflação com o remédio amargo dos juros altos, enquanto a overdose desse mesmo remédio asfixia o paciente - o setor produtivo.


O aperto monetário não é um fenômeno abstrato. A Selic em 14,25% ao ano representa o custo do dinheiro mais caro do planeta em termos reais, transformando o crédito em um artigo de luxo para empresas que dependem de capital de giro. O resultado prático é brutal: em janeiro de 2026, o Brasil registrou 8,7 milhões de empresas negativadas, com uma dívida média superior a R$ 23 mil.


Não por acaso, 2025 fechou com o maior número de recuperações judiciais da história - 2.466 pedidos, alta de 13% sobre o ano anterior. O gigante varejista Casas Bahia, ao protocolar sua recuperação em agosto de 2026, explicitou o diagnóstico: "ambiente macroeconômico desafiador, marcado por patamares elevados de taxas de juros, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre o consumo e o capital de giro". 


A fala do varejista é o eco de milhares de pequenas e médias empresas que enfrentam taxas de empréstimo que podem chegar a 20% ao ano, um verdadeiro "imposto invisível" sobre a sobrevivência .


A crise, como todo drama, cria novos personagens. O aumento vertiginoso da inadimplência está transformando os chamados créditos não performados (NPLs) no grande negócio do mercado financeiro. Projeções da Deloitte indicam que o volume de créditos podres negociados no País deve saltar 73% entre 2025 e 2026, passando de R$ 30,2 bilhões para R$ 52,3 bilhões. 


Esse fenômeno revela uma verdadeira "financeirização" da crise: enquanto a economia real definha, o mercado de reestruturação de dívidas floresce, atraindo fundos, fintechs e grandes investidores que enxergam no sofrimento alheio uma oportunidade de ouro. 


A compra de carteiras de devedores a preços descontados tornou-se um setor em expansão, especializado em precificar o desespero. Isso sinaliza uma economia que, em vez de gerar riqueza, especializa-se em gerir a própria decadência.


Se o setor privado sangra, o Estado não está imune. O governo vê sua dívida bruta projetada para 83% do PIB em 2026, com estimativas apontando para 86,77% em 2027. A equação é simples e cruel: juros altos elevam o gasto com a rolagem da dívida, criando um ciclo vicioso. Para cada 1% de aumento da Selic, o custo de carregamento da dívida pública dispara, pressionando o déficit primário - já estimado em R$ 59 bilhões para 2026 - e engessando ainda mais o orçamento .


Economistas já falam em "armadilha fiscal": o governo precisa de superávits primários robustos para estabilizar a dívida, mas os juros estratosféricos consomem a arrecadação, impossibilitando os investimentos públicos e o crescimento. É a sombra da "década perdida" se alongando sobre o futuro .


O horizonte não é promissor. O Banco Central sinaliza que a política monetária permanecerá restritiva por um período "bastante prolongado" . O mercado, por sua vez, já precifica a Selic em 14% para o fim de 2026, indicando que o aperto veio para ficar .


A trajetória atual sugere três cenários possíveis, todos amargos:


1 - A "Espanha" Brasileira: Uma década de crescimento anêmico, com o PIB patinando abaixo de 2% ao ano, enquanto a dívida pública ultrapassa os 100% do PIB;

2 - A "Argentina" Moderada: Um aprofundamento da crise fiscal que force um ajuste traumático, com cortes severos de gastos e possível renegociação forçada da dívida;

3 - A "Virada de Mesa": Uma combinação improvável de reformas estruturais.


Foto: Divulgação

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José Croelhas é economista,

consultor, escritor e palestrante

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.