Operação investiga transferências e pagamentos de empresa contratada pelo Instituto que chegaram a bens de luxo ligados a pessoas da cúpula da autarquia.
Operação Herbas Nocens - “ervas venenosas”, no português claro - mergulhou nas relações entre contratos públicos, empresas, servidores e movimentações financeiras que passaram pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará, o Ideflor-Bio.

O caso tramita no processo nº 0817313-27.2026.8.14.0401, na Justiça do Pará, e nasceu de investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial Anticorrupção, do Ministério Público do Pará, em auxílio à 3ª Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público e da Moralidade Administrativa de Belém. A apuração investiga, em tese, crimes como associação criminosa, falsidade ideológica, corrupção ativa, contratação direta ilegal, fraude em licitação ou contrato administrativo e lavagem de dinheiro.
A decisão de 17 de
setembro de 2026, assinada pelo juiz Heyder Tavares da Silva Ferreira, titular
da Vara de Juiz das Garantias da Região Metropolitana de Belém, analisou os
elementos apresentados pelo Ministério Público e autorizou medidas pessoais,
financeiras e patrimoniais. Não se trata, portanto, de condenação. Os
investigados continuam protegidos pelo devido processo legal, pelo
contraditório e pela presunção de inocência. O que a investigação procura
reconstruir é outra coisa: o caminho do dinheiro.
Um dos principais
nomes do processo é Nilson Pinto de Oliveira, então presidente do Ideflor-Bio.
Segundo a decisão, cabia a ele autorizar procedimentos licitatórios, homologar
resultados, assinar contratos e deliberar sobre termos aditivos. Era, portanto,
uma posição central na estrutura das contratações hoje examinadas.
Um dos contratos sob
análise envolve a Construtora Duas Marias Ltda. No Pregão Eletrônico nº
01/2023, relativo à manutenção do muro do Parque Estadual do Utinga, a empresa
apresentou proposta de R$ 697.570,14, cerca de 30% abaixo do orçamento estimado
pela Administração.
Menos de um ano
depois, foi autorizado termo aditivo de aproximadamente R$ 251 mil, equivalente
a 36% do valor originalmente contratado. O Ministério Público passou a examinar
a sequência sob a hipótese de uma proposta inicial reduzida seguida de posterior
majoração contratual.
Outro contrato,
destinado à reforma, readequação e ampliação da sede do Ideflor-Bio, começou em
R$ 6,98 milhões. Depois de sucessivos reequilíbrios e acréscimos, chegou a R$
13.891.729,73. O valor final ultrapassou a própria estimativa inicial da
Administração, de aproximadamente R$ 10,67 milhões. Em outro negócio,
decorrente da adesão a uma ata de registro de preços do Município de Óbidos, o
contrato foi fixado inicialmente em R$ 11.847.009,71. Cerca de dois meses
depois, houve redução superior a 25%.
Segundo o órgão
investigador, a alteração não estava acompanhada de justificativa técnica
considerada suficientemente consistente para explicar uma mudança daquela
magnitude. São números que, isoladamente, não provam irregularidade. Juntos,
porém, integram o conjunto de elementos que levou o Ministério Público a
aprofundar a investigação.
É quando os
investigadores deixam os contratos e seguem o dinheiro que o caso ganha outra
dimensão. Na residência compartilhada por Nilson Pinto e Lena Ribeiro Pinto de
Oliveira, foram encontrados documentos relacionados à compra de produtos da
Louis Vuitton no valor de R$ 17.750. A nota fiscal estava em nome de Lena,
utilizando seu nome de solteira. Segundo os autos, o pagamento teria sido
realizado com recursos provenientes da Construtora Duas Marias, empresa que
mantinha contratos com o Ideflor-Bio.
A marca, por si só,
evidentemente não é o problema. O ponto investigado é outro: por que uma
empresa contratada pela autarquia teria pago bens destinados a uma pessoa
ligada ao então presidente do órgão contratante?
A diligência junto à LVMH Fashion Group Brasil acrescentou
outra informação ao processo. Foram identificados dois conjuntos de
transferências atribuídas à Duas Marias, nos valores de R$ 35 mil e R$ 17.750.
O Ministério Público passou a investigar a destinação desses recursos.
Outro fluxo chamou a atenção dos investigadores. Segundo a decisão judicial, transferências atribuídas à Maná Construções de Rodovias e a Rakel Ferreira Rodrigues foram feitas em favor de Nilson Pinto e Lena Ribeiro Pinto entre 19 e 29 de novembro de 2024. Valor total: R$ 549,2 mil. Naquele estágio da apuração, o Ministério Público informou não ter localizado contrato, prestação de serviço ou outro negócio jurídico capaz de explicar imediatamente repasses dessa magnitude.
A hipótese passou a
ser a de que a empresa poderia ter funcionado como intermediária na circulação
dos recursos. Também foram encontrados documentos da Maná em endereços ligados
aos investigados, embora alguns deles não aparecessem formalmente no quadro societário
da empresa.
Priscilla Santos
Cordeiro Hermes aparece em outro trecho do fluxo financeiro. Na residência de
Nilson e Lena foi localizado comprovante de transferência de R$ 10 mil feita
pela Construtora Duas Marias em favor de Priscilla. Em uma agenda apreendida na
sede do Ideflor-Bio, investigadores encontraram ainda a anotação “P. CORDEIRO”,
acompanhada de dois registros de R$ 50 mil - mas aqui os próprios autos
recomendam cautela.
A anotação,
isoladamente, não permite afirmar que se referia necessariamente a Priscilla
nem que os valores tenham sido efetivamente pagos. Por isso, o material foi
tratado como elemento a ser confrontado com a transferência bancária e com os
demais dados da investigação. Priscilla aparece posteriormente entre os alvos
de medidas patrimoniais.
Tatiana Ferreira
Rodrigues também ocupa posição relevante na investigação. Segundo o processo,
ela foi nomeada diretora do Fundo Estadual de Desenvolvimento Florestal e,
posteriormente, por ato de Nilson Pinto, passou a ser ordenadora de despesas do
Fundo de Compensação Ambiental, o FCA.
Somente em 2023, o
fundo arrecadou aproximadamente R$ 38,7 milhões, valor equivalente a mais da
metade da receita total do Ideflor-Bio naquele exercício. Durante a
investigação, documentos empresariais relacionados à Maná Construções foram
encontrados na residência de Tatiana, embora ela não integrasse formalmente a
sociedade.
Também foi localizada
procuração que concedia a ela e a Yann Victor Monteiro Leite poderes de
representação e gestão da empresa. A partir daí, a investigação passou a
enxergar uma rede envolvendo Nilson, Lena, Tatiana, Priscilla, Rakel Ferreira
Rodrigues, Yann Victor Monteiro Leite, Luciele Brito da Silva e empresas como
Duas Marias e Maná Construções.
É essa rede que a
Herbas Nocens tenta desmontar. Documentos societários, registros contábeis,
comprovantes bancários, notas fiscais, procurações, arquivos eletrônicos e
anotações manuscritas formam o conjunto apreendido pelos investigadores. Para o
Ministério Público, os elementos indicariam relações pessoais, funcionais,
empresariais e financeiras que ultrapassariam os vínculos formais entre o
Ideflor-Bio e suas contratadas.
Em uma das passagens
mais contundentes da decisão, o Ministério Público sustenta que Nilson Pinto e
Lena Ribeiro Pinto estariam, na hipótese investigativa apresentada, entre os
principais beneficiários econômicos do suposto esquema, embora os valores, segundo
a tese da acusação, tenham circulado por intermédio de terceiros.
É uma hipótese de investigação, ainda submetida ao
contraditório e à defesa dos envolvidos.
Na segunda etapa da operação, a Justiça determinou a
suspensão do exercício de função pública de Nilson e Lena, o afastamento de
sigilos bancários, medidas contra empresas e a suspensão de contratos
celebrados com a Construtora Duas Marias. Posteriormente, também foram
determinadas medidas de bloqueio e indisponibilidade patrimonial, envolvendo
imóveis e valores atribuídos aos investigados.
Essa talvez seja a pergunta mais fácil de fazer - e a mais
difícil de responder neste momento. Os contratos analisados envolvem dezenas de
milhões de reais. Mas os trechos examinados do processo não apresentam um valor
único, consolidado e seguro que possa ser chamado de “rombo” do Ideflor-Bio.
O que existe são contratos milionários, aditivos
expressivos, transferências sem justificativa econômica imediatamente
identificada, despesas pessoais que o Ministério Público atribui a empresa
contratada pelo órgão e movimentações financeiras consideradas atípicas. É a
conexão entre esses fatos que dá dimensão à investigação.
A Herbas Nocens tenta responder até onde recursos públicos
destinados à política ambiental do Estado podem ter circulado fora da
finalidade oficial e eventualmente beneficiado interesses privados. A resposta
ainda não está dada.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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