Ausência de rastreabilidade e fiscalização eficaz permite que couro de áreas desmatadas ilegalmente no Estados vire artigo de grife na Europa.
esmo com crescimento nas exportações - que somaram US$ 1,26 bilhão em 2024, alta de 12,5% em relação ao ano anterior -, o setor de couro brasileiro convive com uma grave crise de fiscalização e rastreabilidade. Segundo investigação da Ong britânica Earthsight, grande parte da produção ainda é escoada de forma clandestina, com couro bovino originário de áreas desmatadas ilegalmente, inclusive em terras indígenas, sendo "lavado" e exportado sem que sua origem seja devidamente identificada.

O estudo “O preço oculto do luxo”, denuncia como empresas de moda de prestígio internacional - entre elas Coach, Fendi, Hugo Boss e Louis Vuitton - compram couro processado por curtumes italianos que, por sua vez, adquirem a matéria-prima de frigoríficos brasileiros com histórico de violações ambientais.
Entre os principais fornecedores está a Frigol, um dos maiores matadouros do País, cuja planta no Pará é acusada de comprar gado criado ilegalmente em áreas embargadas, como a Terra Indígena Apyterewa, território do povo Parakanã.
A chamada Lei do Couro (Lei 4.888/65) no Brasil proíbe o uso do termo para produtos que não sejam de origem animal, mas não regula com rigor a rastreabilidade da cadeia produtiva. A competência de fiscalização recai sobre o Ibama e também sobre entidades do setor, como o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil, que organiza ações pontuais do "Blitz Lei do Couro".
No entanto, essas iniciativas têm alcance limitado frente à complexidade da cadeia produtiva e à falta de um sistema público eficaz de rastreamento do couro desde a origem do gado até o consumidor final.
“A fiscalização enfrenta obstáculos imensos, entre eles a ausência de identificação individual do gado e a prática comum de ‘esquentar’ animais criados ilegalmente, que são transferidos para fazendas regularizadas antes do abate”, alerta Camila Trigueiro de Lima, do Imazon. “É urgente a criação de regras mais claras, punições efetivas para frigoríficos e um sistema nacional robusto de rastreabilidade”, complementa.
A mesma Lei do Couro (Lei 4.888/65), embora represente um marco importante para a transparência e a correta identificação de produtos de origem animal no Brasil, ainda enfrenta diversas limitações em sua aplicação prática. Infrações são recorrentes, com estabelecimentos utilizando indevidamente o termo “couro” para descrever materiais sintéticos ou informando incorretamente a composição dos produtos.
Parte desse problema decorre do desconhecimento da norma por parte de consumidores e lojistas, o que favorece a perpetuação de práticas irregulares no comércio. A fiscalização também é um ponto sensível: sua efetividade depende de esforços contínuos e estruturados, que nem sempre são suficientes diante da complexidade do mercado. Ainda assim, a lei tem papel fundamental ao promover maior transparência para o consumidor, incentivar o bem-estar animal e fomentar práticas mais sustentáveis no setor coureiro, desde que acompanhada por ações educativas e mecanismos de controle mais robustos.
De acordo com a Earthsight, entre os principais destinos do couro ilegal brasileiro está a Itália - responsável por processar e reembalar o material em curtumes de prestígio como Faeda e Conceria Cristina. Esse couro é posteriormente rotulado como "italiano" e abastece grifes que cobram entre R$ 1.900 e R$ 3.800 por bolsas comercializadas globalmente.
A Ong revelou que o curtume Durlicouros, maior exportador do Pará para a Europa, compra diretamente da Frigol e exportou, entre 2020 e 2023, 14.726 toneladas de couro à Itália. Embora empresas como Chanel, Hugo Boss e Chloé tenham negado o uso de couro brasileiro ou anunciado auditorias internas, o relatório aponta falhas sistêmicas nos mecanismos de certificação utilizados, como o Leather Working Group, que não exige rastreamento até a fazenda de origem.
O escândalo ocorre em um momento simbólico: o Pará será palco da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas este ano. A escolha do Estado, que lidera o ranking nacional de desmatamento vinculado à pecuária, lança luz sobre as contradições do Brasil na agenda ambiental. Só nos últimos 20 anos, uma área quase duas vezes maior que Portugal foi destruída no Pará, segundo a Earthsight.
“O Brasil se comprometeu internacionalmente a acabar com o desmatamento até 2030, mas a realidade mostra uma cadeia produtiva de couro altamente vulnerável à ilegalidade e marcada pela impunidade”, afirmou Rafael Pieroni, coordenador da investigação na América Latina. “É inaceitável que o luxo europeu continue sustentando esse modelo com base em promessas vazias e certificações deficientes”.
Com a entrada em vigor prevista para dezembro de 2025, o novo Regulamento de Produtos Livres de Desmatamento da União Europeia deverá impor exigências de rastreabilidade às importações de couro e outras commodities. No entanto, o adiamento da aplicação da lei tem sido criticado como um “presente” para setores que historicamente pressionam por flexibilização, como os curtumes italianos.
“A entidade europeia precisa ser aplicada com rigor e sem mais delongas. O tempo para ajustes acabou. A única forma de garantir que o couro que chega à Europa não esteja manchado por crimes ambientais e violações de direitos humanos é exigir provas documentais da origem de cada pele, desde a fazenda até a vitrine”, conclui Pieroni.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
ALina Kelian
19 de Maio de 2018 ResponderLorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipisicing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat.
Rlex Kelian
19 de Maio de 2018 ResponderLorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipisicing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip commodo.
Roboto Alex
21 de Maio de 2018 ResponderLorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipisicing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat.