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Contas “laranjas” abrem caminho que faz do Brasil típico paraíso de golpes e de lavagem de dinheiro

Estudo aponta como a falta de punição favorece ação de organizações criminosas e destaca País negativamente no cenário global.

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  • 28/06/25 11:00
Contas “laranjas” abrem caminho que faz do Brasil típico paraíso de golpes e de lavagem de dinheiro
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eitora da Coluna Olavo Dutra encaminhou ao editor os prints de uma conversa que terminou antes mesmo de começar, graças à percepção da possível vítima ante um potencial golpe financeiro. A mensagem enviada por um perfil identificado como “alehouse" informava sobre a necessidade de pagar uma taxa aduaneira para liberação de compra retida na Receita Federal.

Empresa aponta que mais de US$ 3,1 trilhões circularam em dinheiro ilegal pelo sistema financeiro global através de 2 milhões de contas “laranjas” em 2024/Imagens: Divulgação.

Ao clicar no link, conforme orientação, a “quase” vítima foi direcionada para uma página - muito bem elaborada, diga-se de passagem - em nome da transportadora Total Express, que, de fato, existe, mas é tão vítima do golpe quanto quem é ludibriado. A conversa termina quando o perfil é questionado sobre a cobrança. É quando os criminosos percebem que foram descobertos e bloqueiam o interlocutor. Hora de procurar a próxima vítima.

“Consegui me salvar desse” - golpe – “não porque sou esperta, e sim porque já fui vítima. Hoje entendo que é preciso pesquisar, vasculhar, correr atrás de informações antes de realizar qualquer pagamento. Não foi difícil encontrar informações sobre esse golpe na internet. É o que todo mundo deveria fazer”, relata a leitora.

A grande questão é: caso tivesse caído no golpe, para onde iria o dinheiro transferido pela suposta vítima? Aliás, qual o destino da fortuna que, diariamente, é conquistada pelas organizações criminosas que atuam em todos os Estados do Brasil?

Dados que assustam

A resposta está em um dos maiores desafios enfrentados pelo setor financeiro brasileiro: o uso desenfreado de contas “laranjas”. Essas contas, abertas e usadas por terceiros com o intuito de ocultar a origem de valores ilícitos, têm se tornado a pedra angular de uma rede global de fraudes, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e cibercrimes.

Segundo o Global Mules Report 2024, divulgado pela empresa de segurança digital BioCatch, mais de US$ 3,1 trilhões circularam em dinheiro ilegal pelo sistema financeiro global no último ano. E uma parte importante dessa cifra passou pelas quase 2 milhões de contas “laranjas” identificadas em 257 instituições financeiras de 21 países. O Brasil ocupa posição de destaque nessa estatística - mas pelas razões erradas.

Sem-terra da terra

Ainda de acordo com o estudo, um terço das cidades da Amazônia Legal estão sob influência direta ou indireta desses grupos, alimentados por atividades como garimpo ilegal, tráfico de drogas e crimes ambientais. No caso do Pará, a condição de “laranja” vai além e chega, também, a proprietários de terras que nunca foram donos da terra - estratégia usada aberta e cinicamente por ‘grileiros'.

Essas organizações criminosas atuam em todo o território nacional e operam como verdadeiras multinacionais do ilícito: controlam territórios, exploram recursos e utilizam o sistema financeiro legítimo para lavar capital.

Ambiente ideal

No País, a fragilidade da legislação penal aliada à ausência de mecanismos eficazes de responsabilização tornou o uso dessas contas uma estratégia de baixo risco e alto retorno para criminosos. Enquanto nos Estados Unidos a pena média por lavagem de dinheiro gira em torno de 71 meses de prisão, e pode chegar a 14 anos no Reino Unido ou até prisão perpétua na Austrália. No Brasil, varia de 3 a 10 anos de prisão e multa.

“A ausência de punições efetivas cria um incentivo econômico para o uso de contas “laranjas’”, afirma Cassiano Cavalcanti, diretor da BioCatch. “Isso não apenas favorece fraudes e golpes, mas também permite que crimes como tráfico de drogas e sequestros continuem se expandindo pelo país.”

Tamanho do problema

De acordo com o relatório de Identidade Digital e Fraude 2025, do Serasa Experian, 51% dos entrevistados já foram vítimas de fraudes - um aumento significativo em relação aos 42% registrados no ano anterior. Entre as principais modalidades, o uso de contas “laranja” aparece como um fator crítico, com golpes envolvendo boletos falsos ou Pix fraudulento representando 32% dos casos.

Os impactos financeiros são expressivos: 54% dos que sofreram fraudes relataram perdas, sendo que 52% perderam até R$ 500, e 20% tiveram prejuízos entre R$ 1.000 e R$ 5.000. Entre os mais jovens, esse número sobe para 26%.

Dados do relatório 2024 Digital Banking Fraud Trends in Brazil, da BioCatch, reforçam a vulnerabilidade do ambiente digital: 90% das fraudes ocorrem em dispositivos móveis, e mais de 70% das perdas financeiras em 2022 foram via Pix. No total, os golpes resultaram em um prejuízo de US$ 500 milhões no Brasil.

Crime à luz do dia

Cerca de 70% dessas contas são alugadas com ciência ou participação do titular. Os outros 30% são resultado de fraudes de identidade, com CPFs e dados pessoais utilizados por quadrilhas especializadas. Estima-se que mais de 1,6 milhão de brasileiros tenham "emprestado" seus dados para outra pessoa movimentar dinheiro em seu nome.

Durante a “Operação Não Seja um Laranja”, deflagrada há poucos meses pela Polícia Federal, o órgão emitiu comunicado reiterando que “emprestar ou ceder contas bancárias para o recebimento de valores ilícitos é crime". Essa prática tem contribuído para o financiamento de organizações criminosas e causado prejuízos a milhares de brasileiros.”

O Banco Central do Brasil até criou o Manual de Penalidades do PIX, que prevê multa de até R$ 1 milhão para as instituições financeiras que têm conhecimento sobre o aumento no número de fraudes, mas não implementam medidas mitigadoras eficazes para resolver o problema. Mas até hoje, apesar do número assustador de casos, não há informações de que algum banco tenha sido punido.

Fragilidade do sistema

A fragilidade do sistema bancário brasileiro no enfrentamento de contas laranjas acaba favorecendo, ainda que de forma indireta, a atuação do crime organizado. Em alguns países, parte do prejuízo com fraudes recai sobre a instituição que recebe os valores, o que força bancos a adotarem sistemas mais robustos de prevenção e controle de contas de passagem. O que não é o caso do Brasil.

Por aqui, cada um faz o que pode. No caso da Total Express, usada pelos golpistas no caso revelado no início desta matéria, a empresa reagiu rápido e alertou, como pôde, o maior número possível de vítimas para tentar evitar a fraude, mas as autoridades responsáveis pela investigação do caso nunca chegaram ao destino final do dinheiro que chegou a ser arrecadado com o golpe.

No site “reclame aqui” a Total Express respondeu a todas as mensagens denunciando o golpe - e não foram poucas. Nas redes sociais, todos os perfis da empresa publicaram banners denunciando o golpe. Como disse nossa leitora, “quando o assunto é a tentativa de golpe, basta procurar que sempre dá para encontrar algo que ajude a evitar o golpe.”

Um risco ao futuro

O avanço do crime financeiro moderno é impulsionado por tecnologia, conectividade e anonimato digital. Ao permitir que contas "laranjas" permaneçam como pontos cegos do sistema financeiro, o Brasil se posiciona como alvo preferencial do crime organizado internacional.

A postura do país diante desse desafio será determinante. As escolhas feitas agora - no Judiciário, entre reguladores, no Congresso e no setor financeiro - definirão se o Brasil poderá conter a escalada da chamada Dark Economy, ou se continuará sendo um elo vulnerável na cadeia global do crime organizado.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.